Como serão as Maratonas no novo normal

.

Fatores como público, tamanho das ruas, espaço entre competidores e logística na partida e chegada, estão na pauta.

A tradição é tão intrínseca à Maratona da Cidade de Nova York quanto o percurso de 42 quilômetros: um único tiro de canhão e o início do “Theme From New York, New York”, de Frank Sinatra, põem em movimento os milhares de participantes da largada e sobre a Ponte Verrazzano-Narrows. Dificilmente teremos a visão desse mar de gente parecendo um rio.

Provavelmente, haverá milhares de corredores a menos, e os que estiverem lá talvez levem um tempo muito mais longo para começar a jornada. Se houver espectadores ao longo do caminho, é provável que sejam em menor número, pois a organização fará de tudo para impedir que a corrida se torne um evento supertransmissor.

— Nenhuma maratona vai ser realizada como antes! Com certeza. Como vai ser é que ainda não sabemos — admite Ted Metellus, diretor da Maratona de Nova York.

Embora ele esteja se referindo à versão nova-iorquina, poderia estar descrevendo qualquer uma das três principais competições dos EUA e as outras grandes maratonas do mundo.

Anúncios

Com a pandemia cancelando corridas importantes durante a maior parte de 2020 e o primeiro semestre de 2021, há alguns meses os organizadores vêm trabalhando com os especialistas em saúde e membros do governo para planejar o retorno. É um processo que envolve tentativas de previsão de como estará o mundo daqui a sete meses, uma vez que a maratona simplesmente não pode ser planejada (e para a qual nem é possível treinar) com apenas algumas semanas de antecedência.

Não é uma tarefa fácil, e a organização já antecipa que quaisquer que sejam os planos anunciados nas próximas semanas e/ou meses, tudo está sujeito a mudanças.

— Como saber o que pode acontecer entre o momento atual e a corrida em si. O que aprendemos é que a principal característica desta pandemia é a incerteza — afirma Tom Grilk, CEO da Associação Atlética de Boston, responsável pela maratona daquela cidade.

Embora todas as corridas de rua hoje se vejam cercadas de indefinição, os planos para a realização das versões de Nova York, Boston e Chicago, esta última marcada para 10 de outubro, têm um significado especial porque fazem parte da série de Grandes Maratonas do Mundo. Ao lado das de Londres, Berlim e Tóquio, oferecem os maiores prêmios em dinheiro, atraem os melhores competidores do planeta e servem como desafio para corredores de todos os níveis.

A fartura de disputas no segundo semestre — as de Boston, Londres e Tóquio geralmente são realizadas entre março e abril — está obrigando os participantes a se desdobrar. Os corredores de elite, que normalmente participam de uma na primavera e outra no outono setentrionais, agora têm de decidir em quais querem estar. A de Berlim está prevista para 26 de setembro; a de Londres, para 3 de outubro; a de Tóquio, para o dia 17.

Já os amadores precisam analisar para ver quais oferecem mais chances de participação. Na terça, a organização da Maratona de Los Angeles embolou o calendário mais ainda, será em 7de novembro, no mesmo dia que a de Nova York.

Em um ano normal, Boston, Chicago e Nova York juntas atraem mais de 130 mil corredores, gerando milhões de dólares para os órgãos organizadores e garantindo assim a cobertura para todos os gastos dessas instituições, entretanto, os responsáveis por Boston e Nova York já deixaram bem claro que pretendem reduzir significativamente o número de participantes.

— Acho que ninguém espera o mesmo nível grandioso de sempre. Se vai ser diferente? Com certeza. Se o clima vai ser diferente? Com certeza, Carey Pinkowski, CEO da Maratona de Chicago.

Embora as particularidades variem de uma cidade para outra, os organizadores estão todos trabalhando em cima da mesma cartilha, inclusive tentando definir um esquema de realização de exames entre os participantes e voluntários. Além disso, estão revisando uma série de alterações que levam em conta o tamanho das ruas, o espaço entre os competidores e a logística na largada para garantir a maior distância possível entre os participantes.

Para competir, é bem provável que os corredores tenham de exibir o resultado negativo de um exame da Covid-19 nos dias anteriores ao evento, embora ainda não esteja definido quando ele será feito, quem vai pagar por ele e quais serão as consequências caso o resultado seja positivo.
Em relação à corrida em si, é provável que seja uma experiência muito mais solitária, pelo menos nos primeiros quilômetros, guardando pouca semelhança com a massa humana que costumeiramente se vê embarcando em uma corrida comum.

Em Nova York, que tipicamente calcula 55 mil corredores no evento que sai de Staten Island e percorre as cinco regiões da cidade, os responsáveis recentemente discutiram a possibilidade de reduzir o número para 30/20 mil — mas o fato é que, mesmo cortando a participação quase pela metade, o número de ruas fechadas teria de ser bem maior para permitir distanciamento entre os atletas.

Antigamente, levava-se seis minutos para liberar cinco mil corredores. Segundo algumas pessoas que tiveram acesso ao planejamento, e de acordo com uma das possibilidades discutidas, cerca de 12 corredores sairiam a cada quatro segundos, o que implicaria aproximadamente 30 minutos para soltar o mesmo número de participantes — isso se o processo for executado com eficiência máxima.

Metellus informa que a New York Road Runners, organização a que pertence a maratona, e a Prefeitura ainda vão precisar de várias semanas para fechar um plano de ação. De fato, não decidiram ainda nem o número de participantes.

Tem também a aglomeração na chegada — os corredores exaustos chegando aos tropeções, tentando se hidratar, pegando seus pertences e se reunindo aos familiares e amigos — e ao longo do percurso, onde os espectadores ficam reunidos durante horas.

— Dá para fazer uma maratona. É só uma questão de saber qual o estado, a cidade e as agências federais que vão nos dar o aval para isso. Mas não decidiram nem se vão exigir vacina tomada ainda — diz Metellus.

Mitch Schwartz, porta-voz do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, garante que o compromisso das autoridades é com o planejamento de uma corrida segura.

— Começar a recuperação para todos implica resgatar ocasiões tradicionais como a maratona, e faremos o que for possível para mantê-la — afirma.

Diferentemente de Nova York e Boston, a organização em Chicago abriu as inscrições em janeiro, mas ainda não enviou nenhuma notificação nem anunciou o número final de participantes.

A corrida de lá oferece algumas vantagens: a maioria dos participantes pode chegar a pé ou pelo transporte público à área da largada, que fica em um parque amplo no meio da cidade. E as ruas são largas em comparação, por exemplo, com a Main Street de Hopkinton, onde a Maratona de Boston começa.

Pinkowski informa que o tamanho da corrida só será confirmado em junho. Com o número de vacinados aumentando e o de novas infecções caindo, é possível que, quanto mais os organizadores esperarem, maiores e mais “normais” as corridas sejam.

Ele conta que há pouco tempo conversou com seu chefe de operações sobre uma possível mudança na rota, o que faria o percurso rápido ainda mais veloz – e percebeu durante o papo que foi a primeira vez em muito tempo que não discutia a logística relacionada à Covid.
— Foi muito bom — admite.

Estamos ansiosos para retomar nossas corridas