Joaquim Cruz e a primeira medalha de ouro

No dia 06 de agosto de 2020, o campeão nos 800m, na Olimpíada de Los Angeles 1984, relembrou a volta olímpica com a bandeira em punho: “Foi a forma de dividir meu momento com o povo brasileiro”

A corrida 

Há 36 anos, no dia 6 de agosto de 1984, Joaquim Cruz entrava para história do esporte brasileiro tornando-se o primeiro medalhista de ouro olímpico numa prova de pista de atletismo nos 800m, título que mantém até os dias de hoje. Uma corrida épica no Memorial Coliseum, na Olimpíada de Los Angeles, acompanhada por milhões de brasileiros que assistiam ao vivo, pela primeira vez, na TV brasileira. Para relembrar essa conquista inédita, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) organizou uma live com a lenda viva do esporte olímpico brasileiro na quinta-feira, dia 06/08/2020.

Em um bate-papo de duas horas, o maior nome brasileiro da prova dos 800m contou bastidores da Olimpíada. O campeão ressaltou a importância da autoconfiança construída na temporada que foi determinante para a final. Falou também sobre a tática definida com o técnico na noite anterior para enganar o adversário Sebastian Coe, e como deixou tudo combinado com o síndico do edifício onde vivia em Eugene, no Oregon, para que recebesse a bandeira brasileira em caso de vitória.

 Bastidores da vitória

Ao falar da conquista olímpica, Joaquim relembrou as três eliminatórias antes da grande final e como vencer todas elas foram importantes para se sentir confiante.

– Tivemos que passar por 3 dias de eliminatórias e foram provas difíceis. Cada dia foi importante. A gente tinha que sobreviver para o dia seguinte. Eu senti na semifinal que o Sebastian Coe estava observando a minha prova, entrei na reta e controlei minha emoção. No ano anterior, eu tinha passado a temporada na Europa em busca de correr 1m43s e percebi que dava pela primeira vez, e isso foi importante para a minha preparação pra final. Minha mente aprendeu coisas novas durante a corrida que até então eu não conhecia. Eu passei um ano cobiçando correr abaixo de 1m44s e eu consegui isso na semifinal de uma olimpíada, eu precisava daquele sentimento de autoconfiança – contou quando perguntado sobre o momento mais marcante.

Um momento

A parte emocional foi determinante para Joaquim, na época com 21 anos, para lidar com os “dragões” – como ele chama os desafios mentais – e estar descansado para a final. No ano anterior, no Mundial de Helsinke, cometeu o erro na véspera da final do campeonato ao repassar a corrida mentalmente durante a noite, o que o levou a um cansaço físico que refletiu no resultado: o terceiro lugar.

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Outra lembrança foi a tática combinada na noite anterior com Luiz Alberto de Oliveira, técnico que o acompanhou por toda a carreira.

– O Sebastian Coe ficou me usando como coelho na semifinal, e eu usei o queniano como coelho. Quando conversamos sobre qual seria a tática para a final na noite anterior, a gente achava que o queniano iria pra frente. Ele de fato foi e usei ele para controlar a prova. Eu consegui a melhor posição dentro de uma corrida dos 800m, porque eu fiquei do lado direito do queniano e a cada cinco passadas, eu olhava para a direita pra vigiar o Coe.

A tática deu certo, e Joaquim ganhou a final após uma arrancada espetacular na última curva dos 200m para vencer com recorde olímpico de 1m43s00 em cima do então recordista mundial, o britânico Sebastian Coe.

Ao cruzar a linha de chegada, Joaquim quis fazer duas homenagens: ao seu pai com soco no ar, e ao povo brasileiro, com a bandeira brasileira em punho. A ideia surgiu ainda em Eugene, no Oregon, onde o atleta morava e treinava.

– A bandeira era minha, estava no meu apartamento em Eugene, e meu síndico passou no meu apartamento avisando que tinha conseguido ingresso. Falei “pega essa bandeira e passe pra mim se eu ganhar”. Ele me avisou onde estaria sentado, então estava planejado pra ele me entregar. No país do futebol, o jogador corre pra torcida, a bandeira foi a minha forma de dividir o meu momento com o povo brasileiro – declarou na conversa com os assessores da Cbat.

Durante o dia, Joaquim aproveitou a rede social para relembrar outro episódio na noite anterior da grande final e homenagear o homem responsável pela sua brilhante trajetória, considerado como seu segundo pai.

– Quando eu era garoto eu sonhava em ser alguém na vida. Descobri o esporte e o esporte me descobriu. Conheci um professor de educação física, que disse que eu poderia sonhar mais longe. Juntos decidimos explorar os nossos sonhos num mundo desconhecido. Através do esporte tivemos uma experiência extraordinária com as nossas vidas. O resultado final na olimpíada de 1984 foi o início de uma jornada de 22 anos com muitas memórias maravilhosas.

– Tudo começa com o sonho! E quando você sonha, você começa a almejar o horizonte. O garoto tem que sonhar, é de graça! E não tenha medo de criar as oportunidades de realizar esse sonho.

Além do ouro nos 800m, Joaquim Cruz conquistou na olimpíada seguinte, em Seul 88, a medalha de prata na mesma prova. No currículo, ainda tem o bicampeonato pan-americano na prova dos 1500m e o e bronze nos 800m no Mundial de Atletismo de 1983. Até hoje é recordista sul-americano e brasileiro da prova que o consagrou como um dos maiores nomes do esporte brasileiro, com o tempo de 1m41s77, que também o coloca como a quinta melhor marca de todos os tempos no ranking da World Athletics.

Treinador da equipe de atletismo paralímpica dos Estados Unidos, Joaquim mora em San Diego, na Califórnia, com a mulher Mary Ellingson. Tem dois filhos: Kevin e Paulo. Ele é formado em línguas românicas pela Universidade de Oregon, em 1988, e em educação física na Point Loma Nazarene College (San Diego).

 

By Redação