Exercícios físicos provocam mudanças no corpo humano

Novo estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostra a extensão e a importância das alterações moleculares que ocorrer durante e após a atividade física e que podem ter impacto na longevidade.

O exercício físico provoca mudanças no nosso corpo a nível molecular. É o que comprova um estudo divulgado em maio deste ano pela “Escola de Medicina da Universidade Stanford”, nos Estados Unidos, segundo o qual quase dez mil moléculas são alteradas durante e após a atividade física. Muitos outros estudos já comprovaram que o exercício proporciona alterações nas vias metabólica, cardiovascular e imunológica, mas esse é um dos pioneiros na análise da resposta molecular de todo o sistema. Foram medidos os níveis de 17.662 moléculas diferentes e 9.815 delas sofreram mudanças após os exercícios. Segundo os autores, as alterações são uma coreografia orquestrada de processos biológicos envolvendo metabolismo energético, estresse oxidativo, inflamação, reparação de tecido, resposta do fator de crescimento e caminhos regulatórios.

A pesquisa foi feita com um grupo de 36 homens e mulheres com idade entre 40 e 75 anos, com perfis variados de condicionamento físico e saúde metabólica. O sangue dos voluntários foi coletado e eles foram submetidos a um teste de resistência na esteira com aumento progressivo da intensidade até a exaustão, o que acontecia com cerca de 10 minutos de exercício. Mais amostras de sangue foram coletadas após 2, 15, 30 e 60 minutos.

Os pesquisadores analisaram as mudanças nas moléculas que já sabiam que estavam ligadas à atividade física e identificaram diversas outras que apareceram nas amostras sanguíneas. Alguns níveis explodiram imediatamente após o exercício e depois diminuíram; alguns aumentaram enquanto outros abaixaram. Uma variedade deles se manteve estável – elevados ou reduzidos – por uma hora após o treino. De imediato após os exercícios, marcadores de inflamação, de recuperação de tecido e de estresse oxidativo dispararam e as amostras de sangue revelaram que o organismo estava sintetizando alguns aminoácidos para ter energia. Porém, após 15 minutos, o corpo passou a recorrer ao açúcar do sangue (reserva de glicose) para se recuperar do esforço físico.

Moléculas envolvidas no abastecimento, no metabolismo, na resposta imune, na reparação de tecidos e no apetite estavam dentre as categorias cujos níveis se revezavam durante os 60 minutos. Moléculas que desencadeiam o processo inflamatório aumentaram mais cedo e depois foram substituídas por aquelas envolvidas na redução da inflamação.

“Talvez algumas dessas alterações em conjunto seja a resposta que aponta para uma maior longevidade entre pessoas que praticam atividade física regularmente” – avalia o médico Ricardo de Andrade Oliveira, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

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Impacto nos hormônios

Segundo o endocrinologista, o exercício promove uma série de alterações hormonais durante e após as sessões de atividade física. Treinos mais intensos podem gerar, por exemplo:

  • Aumento da secreção de testosterona;
  • Alterações que melhoram o funcionamento da insulina nos tecidos, como os músculos, o que ajuda a controlar a glicose sanguínea.

O impacto depende de muitas variáveis, desde o tipo do exercício, duração da sessão, horário do dia, intensidade e até o nível de motivação. Existem estudos que indicam que até mesmo antes de iniciar a sessão de treino, alterações orgânicas já ocorrem para uma sessão de treino que virá.

 

Efeito no cérebro e no coração

Segundo o estudo de Stanford, após a atividade física ocorre no cérebro a liberação do BDNF, um tipo de proteína (fator neurotrófico) que atua no desenvolvimento e fisiologia do sistema nervoso central. Isso afeta de maneira positiva a saúde mental, o raciocínio, o aprendizado e ajuda a equilibrar a disponibilidade dos neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, que estão associadas ao processamento das emoções.

O aumento da frequência cardíaca e da circulação durante o treino exige a adaptação dos vasos sanguíneos e causa a liberação de substâncias que contribuem para regularizar a pressão arterial. Além disso, apesar de não ser a intenção inicial, os cientistas observaram consistências nas mensurações de participantes com melhor desempenho no teste físico.

Isso indica uma forte correlação entre milhares de moléculas (marcadores de metabolismo, imunidade e atividade muscular) e o nível de capacidade aeróbica de cada participante. Ou seja, talvez seja possível medir o condicionamento físico com previsão em testes de sangue.

 

Longevidade

Há décadas, profissionais de saúde do mundo inteiro recomendam a prática regular de exercício físico para a conquista de saúde e longevidade. E com o avanço da tecnologia, a comunidade científica pode, cada vez mais, comprovar de forma objetiva como uma única sessão de exercícios é capaz de estimular a liberação de milhares de moléculas que podem ter influência direta no nosso metabolismo.

“Os benefícios da atividade física não se restringem apenas a melhora da aptidão física e bem-estar, mas também têm grande potencial de interferir na longevidade. Uma das teorias mais amplamente debatidas, para ajudar a justificar essa interferência positiva, seria a capacidade do exercício de diminuir o estado inflamatório crônico que o avançar da idade pode proporcionar” – explica o médico geriatra, clínico geral e mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Músculo-Esquelético Rodrigo Buksman.

A liberação imediata dessas moléculas na corrente sanguínea gera alguns efeitos rápidos:

  • Estimula que importantes hormônios sejam liberados;
  • Facilita a queima de gordura, diminui a glicemia;
  • Provoca sensação de bem-estar e minimiza o estresse;
  • Reduz de maneira geral o risco de morte por eventos cardiovasculares.

Existem as chamadas zonas azuis, que são pequenas localidades em determinadas regiões do mundo que concentram um elevado número de indivíduos extremamente longevos, nonagenários e centenários. E a atividade física é um dos principais “segredos” dessas áreas, além da alimentação mais natural. A atividade escolhida deve ser prazerosa e facilmente incorporável à rotina do dia a dia para que seja executada até mais de 100 anos. Para adultos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 150 minutos semanais de atividade física leve ou moderada ou, pelo menos, 75 minutos de atividade física de maior intensidade.

“Em Okinawa, no Japão, por exemplo, enquanto muitos praticam artes marciais, outros praticam jardinagem. Então, independentemente da atividade escolhida, o mais importante é a adesão, levando o indivíduo a trabalhar regularmente as várias partes do corpo até a respiração ficar mais rápida e o suor começar a aparecer. Vale sempre ressaltar a importância de evitar esforços excessivos e sem orientação que possam provocar lesões osteomusculares e sobrecarga cardiovascular” – incentiva Bkusman.

 

By Redação

e consultoria Professor Luiz Tavares: https://www.youtube.com/user/luistavares