Overtraining: a síndrome da fadiga crônica do atleta

Exigir demais do corpo e da mente não é perigoso apenas para corredores de elite. Pode acontecer com qualquer um. Veja como identificar sinais de alerta de overtraining, continuar correndo e ter uma saúde cada vez melhor.

 

Overtraining: a síndrome da fadiga crônica do atleta

 

Tenha você começado a treinar recentemente, ou seja, dono de uma coleção de medalhas, certamente busca correr e viver melhor com o esporte. Mas e se, mesmo com toda a dedicação, a coisa não estiver evoluindo? Pode ser que, ultimamente, seu organismo esteja mais vulnerável a doenças e infecções ao seu redor. Ou que estejam mais difícil evitar dores e lesões. Ou ainda que você fique exausto durante o dia, mas não consiga dormir à noite. E aquele recorde pessoal vai ficando cada vez mais distante…

Overtraining, queda do desempenho esportivo sem aparente explicação, esgotamento, chame do que quiser, todos esses nomes equivalem à síndrome da fadiga crônica do atleta.

 Treinar regularmente, mas sem prestar a devida atenção a aspectos como nutrição, sono e recuperação – somado a não conseguir conciliar as exigências da vida estressante e atarefada – pode estar levando você a um esgotamento.

O problema não é só treinar demais, mas, sim, o excesso de tudo que nos cerca. E a distorção cruel dos fatos é que muitos corredores interpretam seus sintomas como uma indicação de que precisam pegar mais pesado no treino em vez de dar um tempo, o que os prende em um círculo vicioso que piora o problema.

Tim Noakes, cientista do exercício renomado mundialmente, da Universidade de Cape Town, na África do Sul, abordou essa patologia em detalhes em seu livro Lore of Running (em tradução livre, A Sabedoria da Corrida). Publicado pela primeira vez em 1985, é um dos poucos livros que reconhece o overtraining e que também destaca a falha fundamental no modo como muitas pessoas abordam o treino.

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Tim escreveu: “Quanto mais pesado treinarmos, mais rápido correremos, e ignoramos as evidências de que isso não é verdade. Fazemos treinos mais pesados e temos pior desempenho na corrida, então, em um ato supremo de estupidez, interpretamos nossas provas ruins como indicadores de que não treinamos o suficiente”. A observação de Tim vai ao cerne do problema: reconhecer quando o benéfico ciclo de treino – estresse, recuperação, adaptação e aperfeiçoamento – termina e o de treinamento excessivo começa.

Há uma diferença muito grande entre overtraining e excesso de treino no curto prazo, ou overreaching. Overreaching é o que tentamos fazer nos treinos: estressar nosso organismo para provocar adaptação. Assim que o estresse cessa, temos uma supercompensação, e o atleta começa a se movimentar bem. Se feito de modo certo, o aumento gradativo na carga de treinos vai dar resultados. Mas essas semanas cada vez mais pesadas devem ser seguidas por períodos de descanso para combater a dor e a fadiga e dar ao corpo a chance de se adaptar. Quando o corpo não tem esse descanso, o overtraining mostra sua cara, que é bem feia.

Como muitos dos sintomas iniciais do overtraining são semelhantes aos efeitos naturais de uma carga alta de treinos, não se pode fazer um diagnóstico antes de a pessoa repousar durante esse período. Além disso, o descanso permite verificar se não há nenhuma razão médica por trás da queda do desempenho.

Outros sintomas podem incluir anemia, desidratação crônica, desequilíbrios hormonais, dores misteriosas, perda do apetite, diminuição da libido, arritmias cardíacas e “lentidão nas pernas”, mas isso varia para cada pessoa. Repetidas infecções das vias aéreas altas são outro bom indicador. E há os distúrbios do humor: atletas com overtraining relatam baixa energia, letargia e raiva. De uma hora para a outra, deixam de gostar de algo que antes adoravam.

 

Organismo estressado

 

Os sintomas psicológicos podem advir de problemas com o sistema nervoso parassimpático e simpático. Quando o organismo está estressado, o sistema nervoso simpático é acionado: ele movimenta o sangue pelo corpo e aumenta a frequência cardíaca. O sistema parassimpático faz o contraponto, ou seja, faz o organismo voltar ao estado de equilíbrio; porém, em um ciclo de estresse excessivo e recuperação inadequada, esse equilíbrio não funciona corretamente. “Como o sistema nervoso central tem influência sobre o cérebro e sobre a fisiologia do organismo, um atleta com overtraining pode achar que sua mente está trabalhando demais. Isso afeta o sono e a capacidade de concentração, bem como o humor”, explica Heroi Fung.

Fung em palestra com atletas

Dessa forma, se você estiver com sintomas como esses, talvez seja necessário consultar um profissional para confirmar o diagnóstico. Um exame de sangue mostra resultados como deficiência de ferro ou de hemácias. “Outra área que deve ser avaliada é o estresse oxidativo”, alerta Fung. O organismo é constantemente atacado por radicais livres, que são produzidos, de modo particular, durante a atividade física. Esses radicais livres danificam células e o DNA, e a incapacidade de tolerá-los é classificada como um estado de estresse oxidativo.

Podemos lidar com o estresse provocado pelo aumento de volume e intensidade de treino se pudermos nos recuperar. Mas os estresses podem vir de diversas áreas. Além do estresse fisiológico do treino, há muitos fatores psicológicos e sociológicos. Inclusive, hoje, diversos especialistas acreditam que para se ter uma recuperação total é preciso levar todos eles em consideração.

Comece analisando sua vida. Observe todas as forças externas que gravitam em torno dos seus treinos e as avalie, como faria com suas corridas.

Seja para elite ou amadores, especialistas passaram a considerar a síndrome de overtraining como um problema maior e mais prevalente do que se pensava.

Historicamente, é provável que o caso mais famoso seja o de Alberto Salazar, cujas três vitórias consecutivas na Maratona de Nova York, nos anos 1980, foram seguidas por uma década de queda de desempenho, apesar – ou é mais provável que seja devido a – de seu treino pesado. Quando ele se aposentou, em 1998, mal conseguia correr por 30 minutos

O fato de o overtraining também ter aparecido, recentemente, entre ultramaratonistas talvez seja resultado da gradativa mudança pela qual a modalidade vem passando. Ela passou de um cenário de nicho, com grupos pequenos, para um esporte profissional. Prêmios em dinheiro, acordos de patrocínio e competições intensas têm exigido mais dos atletas. A maioria dos principais ultramaratonistas supervisiona o próprio treino. E muitos deles têm que conciliar compromissos da vida e fatores estressantes com seus treinos e competições.

Assim, indo um pouco além, é sempre bom lembrar dos motivos pelos quais correr te fazia feliz. Se você focar no valor da sua relação com o esporte, a probabilidade de exagerar em algo bom será menor.

 

By Redação