Marcel Agarie, o cara com mania de corrida

Marcel Agarie é um cara de 39 anos, nascido na zona leste de São Paulo, formado em jornalismo e que desde adolescente gosta muito da área de comunicação, justamente por ter um perfil bem falador, extrovertido e irreverente de ser.

Meu pastel, minha vida

A alcunha de “pateleiro” não tem uma origem específica. Na verdade, é mais um dos trocentos apelidos que eu como descendente de japonês recebia e recebo até hoje. Do mesmo jeito que pegou pasteleiro, poderia ser algum destes: jaspion, jiraya, china, bolivia, japa, poronga, joãoponês, pikachu, entre tantos outros apelidos de japonês. Talvez o fato de eu gostar muito de pastel tenha ajudado a firmar o apelido de pasteleiro.

Minha infância

Minha infância foi tranquila, meus pais sempre estiveram presentes. Mas sempre fui da turma da bagunça e acho que isto eu sou até hoje. Desde muito moleque eu sempre gostei de aprontar com os amigos, professores, vizinhos. Acho que muita gente sofreu comigo nesta época.

Também tive uma fase meio briguenta, maloqueirão mesmo que passou depois que passei a trabalhar num banco. Mas isto passou. Era um pouco de má influência das amizades, por morar em uma região mais periférica de uma cidade grande você acaba convivendo com todo tipo de violência. Por outro lado, lembrar desta fase da minha vida me sensibiliza muito a ver as pessoas que estão nas periferias com outros olhos.

Por acaso eu tive algumas oportunidades que me ajudaram a sair desta vida, mas muitos dos meus amigos não conseguiram. Perdi amigos em meio de brigas, drogas, entre outras coisas da violência urbana. Por isto hoje gosto muito da corrida e apoio muito o trabalho do Tio Barba, que realiza um trabalho social transformador com crianças da periferia de são Paulo.

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Tenho 2 irmãos, mais novos. O do meio inclusive começou a correr antes de mim, o mais novo começou a correr depois. Sempre corremos a São silvestre juntos

Meus pais

Mami, tudo de bom

Meus pais sempre foram presentes e preocupados em nos educar pra vida. Eles sabiam que, não adiantavam nos prender dentro de casa porque mais cedo ou mais tarde a gente iria ir pra rua e fazer alguma merda. Então, tanto eu como meus irmão sempre tivemos muita liberdade para fazer nossas escolhas, mas aprendemos com eles que as nossas escolhas teriam consequências que nós teríamos que administrar.

Um exemplo disto. Como disse, tive uma fase briguenta na adolescência.

 

Com Cristina Agarie.

Meu pai sempre dizia: “quer arrumar confusão, arruma, mas resolvê-la lá fora. Se trouxer pra dentro de casa, vai apanhar aqui também”. Enfim, era a forma que se educava naquela época, mas deste jeito fui aprendendo que a vida também não era só flores o que me faz hoje valorizar cada conquista e a ser feliz com poucas coisas.

Depois de adulto pouca coisa mudou. Continuamos um apoiando o outro e não recordo de brigas entre meus pais e irmãos. Sempre estivemos juntos, principalmente nos momentos difíceis, como na morte do meu pai há poucos anos.

A diferença é que agora os papéis se invertem um pouco e nós, os filhos, nos tornamos pais: hoje cuidamos mais da nossa mãe!

Sair do sofá não foi fácil

Este ano faço 6 anos que corro frequentemente. Meu contato com a corrida foi totalmente por acaso. Entre 2011 e 2012 eu estava bem acima do me peso (pesava uns 95kg na época) e por ser um cara totalmente sedentário fiz o que a maioria dos brasileiros fazem pra dizer que estão fazendo alguma atividade física: fui jogar bola pra tentar ver se queimava algumas calorias e saia do sedentarismo.

Minha corrida preferida

Em 2012, numa destas partidas, rompi sozinho o tendão de aquiles do meu pé esquerdo. Tive que fazer uma cirurgia e só de recuperação da cirurgia foram 6 meses deitado com o pé para o alto, só comendo e “bufando”. Após estes 6 meses, iniciei a fisioterapia para voltar a andar e obviamente estava mancando demais.

Na época, o ortopedista que me operou disse que provavelmente eu mancaria pelo resto da vida, já estava até conformado com isto. Como sou um cara porreta, procurei outra opinião e acabei encontrando um fisioterapeuta próximo da minha da minha casa e dentro do processo de reabilitação ele me incentivou a fazer algumas caminhadas diárias. Estas caminhadas foram virando trotes e quando fui ver já estava correndo uns 5k, apenas por questões de reabilitação.

O primeiro contato com a corrida

Nesta época, um amigo começou então a me convidar para participar de corridas e eu achava um absurdo todo o ritual da corrida de rua: primeiro, ter que acordar cedo no domingo pra ir correr; segundo ter que pagar pra fazer isto sendo que eu podia fazer de graça na praça perto da minha casa e, terceiro, ganhar medalha só por participar, tô fora!

Pagar pra correr, tá louco meu

Recusei durante algum tempo os convites até que ele arrumou uma night run para eu participar, era novembro de 2013, 5k, no Sambódromo em São Paulo.

Aqui é minha praia

Como a prova era noturna eu não tinha a desculpa de não querer acordar cedo, então, acabei indo para agradar o amigo e daquele dia em diante minha percepção de corrida mudou muito. Passei a participar de provas pelo menos 1x por mês, isto foi passando pra 2 por mês e ai fui viciando, chegando até a fazer 6 provas em 30 dias (risos)

Sobre quem me incentivou, acredito que devo muito ao fisioterapeuta que me colocou pra trotar na reabilitação e ao meu amigo Márcio Schuld que me levou pra fazer a Night Run, senão eu estaria até hoje fazendo meus 5k na pracinha perto de casa.

Minha primeira corrida foi como ir para a feira livre de domingo de chuva, não estava muito afim mesmo (risos, coisa que não gosto) então, não foi algo que me empolgou pra caramba, porque eu fui meio que a contragosto. Não foi algo que eu fiquei meses me preparando para aquilo, porque eu já rodava 5k e cai meio que do nada na prova. Obviamente ela tem um significado especial pra mim, mas não foi tão emocionante pra mim como foi fazer os primeiros 21k ou a maratona.

Depois da primeira, já faz uns anos que perdi a conta, mas se fosse contar já deve ter passado de 300 tranquilamente.

Mania de Corrida, meu!

A minha corrida mais difícil, na verdade foram duas: a primeira foi uma Meia Maratona no Costao do Santinho. Eu já tinha feito alguns 21k e achava que lá seria algo parecido. Mas era uma prova trail, cheio de trilhas, subidas, areia de praia, enfim. Foram mais de 5 horas pra concluir a prova e a segunda, a Maratona do Rio que fiz depois de trabalhar 3 dias de pé na expo.

Sabe o que é a corrida para mim? A corrida pra mim é uma bela desculpa pra socializar com as pessoas e praticar uma atividade física.  Hoje a corrida além de lazer, passou a ser minha vida social e profissional, algo que pra mim é extremamente prazeroso.

A corrida pra mim é melhor que comer um pastel na feira com caldo de cana

Correr pra mim é uma terapia, um momento que consigo pensar, principalmente durante treinos longos que corremos em ritmos mais tranquilos e podemos pensar. É aquele momento em que me encontro comigo mesmo, é a minha yoga!

O Rio de Janeiro continua lindo.

Hoje tenho um desafio particular: buscar um RP na Maratona de Buenos Aires em 22 de setembro. E putz são muitos outros desafios que tenho na cabeça: mas se for pra escolher uma, talvez correr na Disney, o Desafio do Dunga, principalmente pela bagunça que seria correr e gravar esta prova.

Não tenho nada especial antes das provas. Só tento dormir melhor e descansar quando posso. E no dia da prova me divertir, porque é pra isto que corro.

Todos nós temos a nossa prova mais desafiadora e para mim acho que foi a Maratona de São Paulo, por ter sido a minha primeira maratona, a gente tem aquela sensação de que não vai conseguir terminar, então este frio na barriga deu esta sensação de desafio.

Toda minha vida fui um cara irreverente e sempre fui da “turma que gostava de uma bagunça”, diversão, de estar sempre rindo de qualquer coisa.

Eu sou assim, me divirto até com calo no pé

O “Mania de Corrida” surgiu da parceria com o Marcos Garcia, meu sócio no Mania. Ele também é jornalista e estávamos nos encontrando em várias corridas e passamos a correr com certa frequência juntos. Como somos jornalistas e ambos trabalhavam com redes sociais, criamos os canais do mania nas redes sociais (instagram / facebook) para divulgar conteúdos sobre corrida de rua que participávamos. Na época ainda existia poucas contas que falavam sobre corrida de rua, nem existia o termo “digital influencer”, e isto certamente nos ajudou a crescer muito neste início. Ai criamos o canal e passamos a produzir conteúdo em vídeo também o que nos ajudou ainda mais a nos dar a visibilidade que hoje temos.

Se eu pudesse dizer alguma coisa para os novos corredores/corredoras eu diria o seguinte: “não se compararem com outras”. Isto muitas vezes pode trazer frustrações. Por exemplo, 2 amigos começam a correr junto, um deles evolui rapidamente e o outro não. O que não evolui, fica chateado e muitas vezes até acaba desistindo de correr. Há muitos fatores para isto, talvez seja preciso treinar mais, se alimentar mais, ou as vezes, mesmo que estejam fazendo tudo certinho, igualzinho, um tenho uma pré-disposição genética e mais facilidade pra corrida. Apenas isto. Vivemos num mundo de redes sociais que todo mundo só sabe dizer “você é forte, você consegue! você pode tudo”. Este incentivo é bom, mas será que conseguimos tudo? Prefiro dizer para as pessoas que elas precisam é aprender a observarem mais os sinais do próprio corpo, pra entenderem onde é o seu próprio limite e aprender a lidar, sem se frustrar, com as próprias limitações. E nestas horas, que a pessoa passa a se cobrar demais mesmo sendo apenas um atleta amador, ela deixa de se divertir e de fazer da corrida algo saudável e prazeroso.

Não penso muito em daqui 10 anos. Sou muito intenso nas coisas que faço no agora. Falo isto porque há 10 anos eu nunca me imaginei correndo como estou hoje. Talvez se há 10 anos eu ficasse pensando o que eu ia fazer hoje, eu não teria feito nada, teria deixado de viver momentos incríveis porque tava planejando algo muito grande pra daqui 10 anos que eu nem sei se iria dar certo. Então tento ser feliz com as coisas que tenho e vou construindo minha história com as peças que me dão diariamente. Daqui 10 anos, se eu estiver com saúde e com ótimas lembranças dos 10 anos que passaram já será um ótimo motivo pra continuar feliz.

 

Redes sociais:

maniadecorridabr(YouTube) ; agarie(Twitter) ; marcel_agarie(Instagram)

 

Redação