Pinguim, o fotógrafo corredor

Pinguim é um cidadão brasileiro, atualmente com 52 anos que gosta de correr. Minha primeira corrida foi a São Silvestre de 1981. Para mim, na São Silvestre, eu me sentia como se estivesse participando de uma olimpíada. Muitos astros internacionais e eu com meros 15 anos de idade. E 1981 era um ano singular pois faria um ano que um brasileiro quebrou o jejum de 30 anos que só estrangeiros tinham levado o primeiro lugar. Em 1980 o Jose João da Silva, imigrante nordestino, vindo de Bezerros/PE havia destronado todos os grandes atletas e a expectativa era que outro brasileiro também ganhasse, nesse ano. Coisas do destino, fiz essa corrida e parei…

Não sei bem por que, mas dei uma parada e depois de algum tempo voltei a treinar e decidi correr novamente a São Silvestre, ano 1994. Queria fazer algo diferente: me predispus a fazer uma homenagem a Ayrton Senna, que havia falecido enquanto participava do Grande Prêmio de San Marino, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, na Itália.

E escolhi a São Silvestre por ser uma corrida plural. Fui vestido de verde e amarelo e o boné igual ao que ele usava escrito “valeu Senna” e nessa corrida estavam muitos corredores vestido com o macacão, com o capacete, com placas e muitas homenagens a esse brasileiro admirável. Foi lindo.

Naquela época a corrida era a noite e era o contrário, a gente descia a Av. Brigadeiro Faria Lima, passava pelo centro e subia a Consolação. A gente ganhava um diploma de conclusão da prova. Mas não era tanta gente como se ver hoje. Eu gostava de correr a São Silvestre.

Nessa corrida quem fez as fotos foi minha esposa. Nessa época eu não fotografava. Durante a corrida reuni alguns desses caras que estavam fazendo a homenagem e saímos correndo juntos. Qual não foi a minha surpresa quando vi a quantidade de pessoas que pediram as fotos, aí resolvi virar fotógrafo de corrida naquele momento. A partir daí peguei gosto pela corrida.

Eu nunca tive câmera, mas a minha esposa tinha e na São Silvestre de 1994, foi que tive um insight de que fotografar corrida poderia ser um bom negócio.

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Detalhe: quando decidi virar fotógrafo de corrida eu não corria com a câmera, eu corria rápido, chegava, pegava a câmera com minha esposa e tirava as fotos dos retardatários.

Somente no ano de 2001 na Maratona da Fé organizado pelo Roberto Lousada a gente resolveu correr do Pacaembu até o km 38 correndo com a câmera e a partir daí ela passou a ser meu instrumento de trabalho.

Os dois grandes momentos na minha vida de corredor foram a São Silvestre e a Maratona da Fé, depois dessas duas me tornei o que sou.

A corrida foi terapia

Minha infância foi tranquila, morei e moro até hoje na Vila Carrão, em São Paulo, fui criado por um casal de portugueses. Minha mãe de criação quando me pegou pra criar tinha 56 anos e foi após o falecimento dela, no ano de 2000, que busquei algo que pudesse esquecer a perda dela. A corrida para mim foi terapia. Ela possibilita a você esquecer os momentos ruins e ao mesmo tempo lembrar os momentos bons. Corria sem técnica nenhuma e sem orientação, corria pelo simples prazer de correr. O que mais gostava era de correr no Cemitério de Vila Formosa e de lá ir até o Parque do Seret, na zona leste de São Paulo.

Depois de alguns meses fazendo esse trajeto vi uns caras treinando no Parque e foi em 2001 que entrei em uma assessoria esportiva. Vi aqueles caras e cheguei para o técnico que cuidava deles e perguntei “posso participar também?” E ele falou que sim. Nesse período pratiquei muito atletismo em pizza, fui treinado pelo Marcão, o Marco Antonio Pinto, que é técnico de atletismo da Assessoria Marco Correa e me especializei em corrida de 5km e cheguei a correr a 18 minutos. Estava correndo a 3:01, nas distâncias curtas. Uma velocidade média. Nunca fui um corredor de maratona rápido, mas tenho resistência. Pagava minha mensalidade com as fotos que fazia do grupo.

 

O fotógrafo corredor

 

Já tinha feito várias maratonas e minha primeira foi em 1995 em Blumenau e no mesmo ano fiz uma maratona em São Paulo e essa maratona foi chamada de Maratona do Maluf. Essa maratona era organizada pela Cook Tavares e depois passou a ser organizado pela Yescom.

Capa da Revista Contra Relogio

E passei a trabalhar como fotógrafo para a Yescom, para a revista Contra-Relógio e outros veículos de comunicação e organizadores de corridas. Já fiz cinco vezes Maratona na Argentina, a “K42 Villa la Angostura”, na Patagônia Argentina. Como corro com câmera eles me contrataram para divulgar a cidade. Uma das Maratona nas mais bonitas do planeta.

Como já estava acostumado com a distância da Maratona aí fiquei curioso de participar de uma Ultramaratona. Dentre as várias que pesquisei escolhi participar da “Super Maratona de Nova Friburgo” por ser uma corrida de 50k e em montanha, isso em 2009, que saia de Teresópolis e ia até Nova Friburgo, inclusive era uma corrida ideal para quem se preparava para ir a “Comrades”. E eu estava pensando ir para a Africa do Sul, correr a  “Comrades Marathon“. Nessa ultramaratona, além de mim quem vinha pela primeira vez era o Nilson Lima, corremos junto por um bom tempo e aproveitei para tirar várias fotos. Ela já pertencia ao “Marathon Maniacs” que é um Clube que existe nos Estados Unidos e reúne os maiores maratonistas do mundo.

Comece fazendo o necessário, depois o possível e de repente você estará fazendo o impossível.

Quase 100 provas longas, sendo 9 ultra e 76 maratonas, sendo 7 no exterior

 

Por que Pinguim?

 

Quando era criança minha mãe nunca me deixava sair de casa sem guarda-chuva quando estava chovendo, inclusive nos dias em que estava somente aquela garoa típica paulistana. Ela falava “tem que levar o guarda-chuva para não pegar um resfriado”. E o guarda-chuva era daqueles grandes e preto. E nessa época na televisão tinha a Série do Batman e o Pinguim estava sempre de guarda-chuva, mesmo em dias de sol. Então quando chegava na escola a molecada falavam “chegou o Pinguim”, como odiava o apelido ele acabou pegando e eu depois de muito tempo, carinhosa o transformei em minha marca. Hoje se as pessoas me chamam pelo meu nome eu já nem entendo: qual é meu nome mesmo? (Risos)

O apelido se firmou quando estava em uma corrida e um colega de escola me viu e gritou “oi Pinguim, você tá aí?” De repente todo aquele pessoal que já conhecia de outras corridas passaram a me chamar pelo apelido e em pouco tempo passei a ser conhecido como:: PINGUIM!

 

Meus próximos desafios

 

A corrida como mobilidade urbana

A ideia é estimular as pessoas a não irem aos parque de carro 

Meus desafios na verdade não são a nível de velocidade e distância, e sim utilizar a corrida como meio de transporte. Meu desafio é transformar a corrida como meio de transporte ecológico, ou seja, criar um evento e popularizá-lo em São Paulo: “Volta dos Parques”. Corrida como mobilidade urbana.

Isso é inspirado no povo Tarahumara, do livro “Nascido para Correr” que analisou os conceitos da corrida utilizada por esse povo: Christopher McDougall, um fã de corridas ao ar livre, sofria com constantes problemas ao se exercitar. Quando procurou um grande especialista em lesões esportivas, ouviu o diagnóstico definitivo: “O corpo humano não foi projetado para esse tipo de exagero”. No entanto, se quisesse uma solução verdadeira, não poderia percorrer apenas laboratórios, mas teria que se embrenhar entre os desfiladeiros mais isolados do México e passar pela maior aventura de sua vida, entre personagens inacreditáveis.

E é neste ponto que a vida do jornalista se transforma para sempre. O livro conta a história dos índios Tarahumara, que habitam a região de encostas e cânions inacessíveis na fronteira mexicana com os Estados Unidos. Eles são os melhores corredores do mundo, superando em muitas vezes a resistência de maratonistas experientes. Com a maior naturalidade, correm o equivalente a quatro vezes uma maratona nos piores terrenos e condições.

Eu costumo correr sem pressa, em ritmo de trote, pois levo em média entre 2 a 3 quilos de peso extra, contando fotos, roupas e a própria mochila, geralmente quando vou vender fotos não costumo levar câmera para correr com menos peso, mas no domingo do dia 30 de novembro de 2014 eu levei meu equipamento fotográfico para registrar a 1ª Volta de Corrida-Transporte entre 12 parques da Cidade de São Paulo, o local de partida e chegada da volta foi o Parque Ceret (na Vila Formosa), na sequência e no sentido anti-horário passei e fotografei o Parque do Piqueri, Parque Belém, Parque do Trote, Parque da Juventude, Parque da Luz, Parque da Água Branca, Parque Buenos Aires, Parque Trianon, Parque da Aclimação, Parque da Independência, Parque Sabesp Mooca e finalmente voltei ao Parque Ceret.

Alguns meses antes de completar a 1ª Volta de Corrida-Transporte entre 12 parques da Cidade de São Paulo, nos dias 5 e 6 de abril de 2014 realizei as minhas primeiras corridas-transporte com registros fotográficos, pois correr entre vários parques ou entre várias localidades (sem ser em provas) eu já praticava há muitos anos atrás, esse hábito que junta o útil (transporte) ao agradável (corrida) se intensificou a partir de 2009, ano que fui convidado para correr e fotografar o ultramaratonista Dean Karnazes num evento de 24 Horas participativo, nesse dia eu aprendi observando o próprio Dean Karnazes que correr e parar várias vezes para abastecimento de água, alimentação e para descanso é algo essencial para qualquer deslocamento de longa duração, principalmente ultramaratonas.

O velho e bom Conga

Como faço trabalho de fotografia para o José João da Silva, o organizador de várias corridas e quando fui para fazer a “Corrida das Pontes”, no Recife, conheci o Gilmar Farias, biólogo, professor universitário e também fotógrafo, ele me enviou o livro dele. E nesse livro tem um capítulo dedicado ao Conga, no período em que ele corria de Conga. Então ao invés de você querer gastar uma baba para comprar um tênis de última geração eu vou passar a utilizar tênis minimalistas e o melhor mesmo é o velho e bom Conga. Só tem um detalhe, utilizando-o você não utilizará o amortecimento da indústria do tênis, mas passará a utilizar o amortecimento que foi dado por Deus: a panturrilha. O mesmo princípio que Abebe Bikila usou para ganhar a medalha de ouro da Maratona de Roma, na Olimpíada de 1960 e a locomotiva humana Emil Zátopek ao vencer a Corrida de São Silvestre em 1953, utilizando o peito do pé e não o calcanhar.

O ócio criativo

Não foi fácil no início conciliar minhas atividades sociais, a família e minha profissão: fotógrafo de corridas.

Na verdade, eu aplico a teoria do sociólogo Domenico De Masi, autor do livro “O Ócio Criativo”, onde ele cria o conceito segundo o qual o ócio, longe de ser negativo, é um fator que estimula a criatividade pessoal, no meu caso, pude transformar o lazer em um trabalho. É isso que faço, na prática, eu trabalho, faço lazer e com isso gero meu ganha pão! Mesmo porque algumas vezes a família vai junto.