Kyoji Takai, o japa das 390 corridas

Kyoji Takai é seu nome, japonês de origem, mas brasileiro de coração e como todo bom japonês é um homem de poucas palavras, mas de muita ação. Como corredor pode ser considerado um exemplo para muitas pessoas, pela dedicação, disciplina, foco e principalmente coragem! Carrega na bagagem de mais de 390 corridas, sendo 49 maratonas, 13 São Silvestre, 60 meia maratonas, algumas ultramaratonas e por aí vai…

Esse cara sou eu…

Nasci em Shiga, no Japão em 10/02/1958. Eu vim para o Brasil quando completei 02 anos, vim de navio cargueiro em uma viagem de 45 dias.

Minha mãe contava que viemos como passageiros, como imigrantes mesmo. Foi uma grande mudança. Papai trouxe um tratorzinho, móveis, bicicleta, até papel higiênico eles trouxeram e um radinho de pilha (rrsss). Meu pai trouxe uma carga muito grande porque queríamos nos estabelecer no Brasil. Eles tinham ouvido falar muito do Brasil.

A chácara de meus pais

Antes de embarcarmos, papai já tinha comprado uma chácara pequena em Mogi só pelas fotos. Quando desembarcamos em Santos, o loteador do terreno foi nos ajudar na mudança até Mogi. Ficamos hospedados em um galpão da casa dele por quase três meses, tempo necessário para meus pais construírem a casa que iriamos morar.

Nossa chácara ficava no bairro Cerejeira. Até o primário, não tive dificuldade, mas para o ginásio, colégio, tínhamos que ir ou para Guararema ou Jacareí, um pouco mais longe.

A escola ficava há três quilômetros de casa, como não tinha bicicleta para todos, íamos a pé mesmo, chuva ou sol. Nessa colônia que morei só tinha japonês. A professora era nissei e na escola falava em japonês e a professora respondia em português. Demorei aprender português.

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Moramos na chácara por dez anos e como ficava tudo longe, para estudar, meus pais decidiram vir para a cidade.

Para a cidade de São Paulo, viemos em 1972. Para mim foi um baque. Os colegas eram brasileiros e só falavam português. Na colônia só falávamos em japonês, foi difícil o começo de minha vida em São Paulo. O pior de tudo é que era tímido, então ficavam sempre em um cantinho, sempre na minha…

Tinha muita dificuldade de fazer redação. A professora sempre falava – você não pode falar japonês senão você não vai aprender o português e ela sempre mandava fazer redação e sempre me dava nota baixa. E ela falava – poxa Kyoji, você precisa melhorar senão você nunca vai conseguir se formar e eu dizia – vou conseguir sim. E ela me passava redação todos os dias… mas graças a essa professora (Prof Mariana), consegui melhorar muito. A escola ainda hoje existe e fica na Rua Joao Moura.

Já instalado em São Paulo, demorei fazer amizades porque meu pai abriu uma oficina de rádio e televisão e tinha que ajudá-lo. Chegava na escola em cima da hora e quando terminava a aula tinha que ir correndo ajuda meu pai na oficina.

Os poucos amigos que consegui me falavam: – Kyoji, você tem muita força… como vim da roça os poucos amigos ficavam admirados. Joguei bola, no gol. É um dia eles me convidaram para um “braço de ferro”, ganhei o primeiro desafio e não perdia uma. E eu pensava: – o pessoal da cidade não tem força nenhuma. Hoje eu sinto que meus membros superiores perderam muita massa. Hoje sinto necessidade de fazer musculação e atividade física para manter a saúde.

O interessante na chácara é que não tinha energia elétrica e o rádio era a pilha. Papai usava o rádio para ouvir as cotações de tomate, cenoura, ovos… era uma peça fundamental para ele.

Meu pai tinha trazido um radinho de pilha do Japão e um certo dia, eu o desmontei

Eu ficava muito curioso com o rádio e pensava: – como é que ele capta esse som, de onde vem esse som e um dia eu resolvi abri o rádio para ver o que tinha dentro e resolvi desmonta-lo! Quando papai viu o rádio desmontado, levei uma bronca e ele disse: – você é muito curioso e vai se dar bem em eletrônica. Aí comecei a estudar eletrônica nas revistas. Quando ele montou a oficina de rádio e televisão ele me passou um circuito para fazer o “rádio de galena”. Foi uma felicidade quando fomos juntos comprar as peças na Santa Ifigênia. Aí ele foi ensinando e quando ouvi a estação mesmo sem pilha e sem energia fiquei maravilhado. Ele tinha prazer em me ensinar a consertar os rádios. Com treze anos bati meu recorde de consertos: 30 rádios em um único dia. Graças a ele hoje sou formado na área de eletrônica.

Meu pai é falecido há dez anos. Minha mãe está viva, vamos comemorar os 88 anos em final de maio.

Quem é o Kyoji?

O Kyoji Takai é um engenheiro, trabalha em uma empresa há mais de 30 anos e pensando na aposentadoria, fiz o curso de turismo porque gosto de viajar. O Kyoji é um cara que se doa e como meu pai sempre dizia: – se é pra fazer, faça com dedicação, com bom grado e não espero nada em troca. Esse é o Kyoji!!

Por que a corrida?

Comecei a visitar muito consultório médico, vez ou outra tinham alguns problemas e um cardiologista me perguntou: – você já quer começar a tomar remédios contínuos ou mudar um pouco a sua rotina? O que eu posso fazer, perguntei. Faça uma caminhada de 30 minutos por dia, isso aos 47 anos… faça caminhada e se as triglicérides estiverem melhor não vou receitar nada, ok?

Comecei a caminhar os 30 minutos sugeridos. Quando voltei ele me falou que os exames mostraram que estava jovem de novo.

No começo o único trote que fiz foi de 300 metros e me doía todo quando cheguei em casa.

Um dia os amigos me viram fazendo minhas caminhas e me convidaram para correr a São Silvestre. Achei que nunca conseguiria completar essa prova. Para mim era uma coisa distante, doida. Demorei um ano para corrê-la.

Minha primeira corrida foi em 1986, a Corrida de São Paulo. 10 km, uma imensa satisfação quando cruzei a linha de chegada. Não acreditava, mas ao mesmo tempo acreditava porque eu estava lá!!!

Já fiz 390 corridas!

Quando comecei a correr, fazia corrida todo fim de semana e as vezes até duas. E a cada corrida ia gostando mais e mais. Tive ano que fiz mais de 40 provas. Atualmente, procuro escolher minhas corridas.

Tico Bonis, Luiz Carlos Bordoni e um amigo.

Quando cruzei a linha de chegada da minha primeira maratona, fiquei deslumbrado, senti que podia ir mais longe. Aquilo foi um momento de celebração: agradeci pela vida, pela saúde e pelo fato de poder correr, coisa que aprendi a gostar!

Em todos esses anos, se fosse agradecer a todas as pessoas que me ajudaram, me incentivaram, me motivaram a lista seria grande, por isso agradeço de coração cada uma delas e meu agradecimento especial ao Prof. Tavares e ao Heoi Fung.

De todas as corridas que fiz ate hoje a corrida mais desafiadora foi a UP Hill Mizuno 03/09/2016 no Rio do Rastro-SC, com aquela subida íngreme nos últimos 7 km da maratona, a noite com chuva e muito frio. Essa corrida foi o bicho!!!

A paixão por correr na Disney

Quando fui pela primeira vez correr na Disney, só tinha a Meia e a Maratona. A primeira vez só corri a Meia maratona e o amigo convidou para ver a corrida de 5km. Depois que todos largados eu larguei e achei espetacular as pessoas levarem as crianças e as pessoas ficarem no percurso todo aplaudindo. Aquilo era energia pura…

Desde a primeira edição do Desafio do Dunga, fiz todas. Só na última que tive uma desidratação e não completei a Maratona.

O treino e o Prof. Tavares

Sempre treinei sozinho. E em algumas provas encontrava o Angelisio que me convidou para fazer parte do Grupo do Tavares. Um dia estava treinando no Ibirapuera e encontrei o Angelisio e fui com ele conhecer o Tavares. O Tavares gentilmente me convidou para degustar uma aula. Gostei muito e treino com ele há mais de treze anos

Hoje o Tavares, além de meu técnico e professor de educação física também é meu grande parceiro nas corridas pelo mundo afora. Nossa relação é mais que professor x parceiro, é quase de irmão.

Porque começar a treinar?

Quem pretende começar a correr, só por estar com a vontade já é um bom começo. Entretanto, precisa de um profissional de educação física, fazer os educativos para não sofrer lesões e ter uma vida longa nas corridas. Recomendo a todos uma assessoria para uma orientação melhor e se não puder pagar uma assessoria, começar leve, com muito cuidado.

Minha ultramaratona particular

Viagem e corrida

No dia em que completei 58 anos decidi fazer algo diferente de tudo o que as pessoas normalmente fazem na data de seu aniversário. Normalmente as pessoas gostam de comemorar com a família e amigos. Nesse dia, procuro, agora, fazer algo inusitado. Para mim, no dia do meu aniversário procuro fazer uma reflexão de agradecimento pela saúde, pela vida, pelo que já fiz e pelo que posso ainda fazer. Para mim é uma realização pessoal e altamente gratificante. É aquele momento em que estou sozinho e a rua é só minha, não por egoísmo, mas é para está comigo mesmo.

Nesta data sai de casa as 6:00 da manhã e percorri as ruas de São Paulo em um percurso especial de modo a completar os 58 kms, correspondente a um km para cada ano de idade. Esse desafio já fiz três vezes: quando completei os meus 59 anos, nos meus 60 anos e nesse ano quando completei 61 anos, fiz minha ultramaratona de 61 km, e pretendo continuar executando esse desafio até o dia em que Deus me permitir.

Correr é trocar o remédio por exercício físico: foi o que fiz e hoje corro por paixão 

Não me sinto com a idade que tenho. A corrida permite que você faça a diferença para você mesmo. Correr é trocar o remédio por exercício físico, fora o que você ainda agrega à sua vida: paixão, amizades, lazer, viagens. Um calção, um tênis e uma camiseta podem fazer milagres na nossa vida. Na minha vida me permitiu trocar remédio por qualidade de vida.

Daqui a 10 anos quero continuar com saúde para completar um percurso no dia do meu aniversário com a distância da minha idade para incentivar outras pessoas a prática do esporte e poder continuar correndo em lugares diferentes para conhecer novas culturas: Berlin, Nova York, Chicago, Tokyo, China…

O que diz o Professor Luís Tavares, amigo e parceiro

Adreia Silva e Professor Tavares

Kyoji entrou na equipe no dia 26/11/2007 , ou seja 12 anos de equipe e hoje ele é mais que um simples aluno, é um amigo, um verdadeiro irmão, uma pessoa boa , sempre pronto para ajudar o próximo. Em 2012 para me aperfeiçoar em Turismo, entrei no curso de agente de viagem e 1 ano depois curso profissionalizante em guia de Turismo e ambos o curso convidei o Kyoji para participar e nos formamos e hoje o Kyoji me ajuda e é meu braço direito em todas viagens que organizamos. Trabalhamos com turismo desde 1997 e a partir de 2012 após nossa formação ampliamos nossas viagens nacionais e Internacionais e Kyoji continua sendo meu braço direito e irmão!!!

 

E o que diz o Marco Costa, amigo e corredor

No ano de 2014, fiz a inscrição na Maratona do Rio de Janeiro e, em seguida, fechei o pacote de translado e hospedagem com a Equipe Tavares (do meu primeiro chefe, Luís Tavares). No aeroporto de Congonhas, tive contato com o guia que nos levaria ao Rio de Janeiro, um imigrante japonês e que mostrou muita simpatia nas primeiras conversas, além de ser muito prestativo. Momentos depois, passaria a saber todo o curriculum dele de Ultramaratonista. Sim, estou falando do Kyoji Takai!
Engenheiro eletrônico de formação, Kyoji começou a correr e cada vez mais se destacar nas corridas e, conforme sua evolução, nas maratonas e ultramaratonas.
Além de correr uniu a paixão por este esporte com o curso para ser Guia de Turismo e integrar a competente agência “Tavares Tur” nas viagens para as corridas pelo Brasil e pelo mundo, não só na qualidade de Guia Turístico como participando das provas.
Se o meu primeiro contato com o Kyoji foi o excelente na Maratona do Rio/2014, na viagem para o “Desafio do Dunga”/2015 foi ainda melhor. Diante de um grande “abacaxi para descascar” (o piloto do voo que nos levaria para Miami passou mal e a programação da viagem foi toda atrasada), ele passou toda a sua tranquilidade a todos e a viagem feita da melhor maneira possível. Outro fato interessante é que correu as 4 provas de 5km, 10km, 21km e 42km em dias consecutivos com ótimos tempos e ainda tinha fôlego para dirigir a van para levar os passageiros aos passeios em Orlando (que apelidamos da “Van do Tio Kyoji”).
Marco Costa, na Disney

No ano seguinte, tive outra oportunidade de viajar com a Tavares Tur para a Disney, também tendo ele como guia. A disposição, simpatia e competência do Kyoji continuaram as mesmas do ano de 2015, mas fato engraçado ocorreu no aeroporto de Miami, no momento que estávamos a caminho de pegar o voo para Orlando, marcou bem esta viagem: havia uma mochila no chão do aeroporto. Uma vez que americanos são todos preocupados com ataques terroristas e não se sabia o que havia na mochila, toda pessoa que tentava pegá-la o Kyoji, como líder, falava alto: “Não pega! Não pega!”. Este fato marcou tanto que, brincávamos de jogar um agasalho no chão, uma pessoa tentar pegar e o outro vinha e gritava: “Não pega! Não pega!”.

Isso que posso falar do meu amigo Kyoji: uma pessoa de muito caráter, prestativo ao extremo, de muito bom humor, profissional competente, além de um excelente ultramaratonista. Nesta justa homenagem a ele, eu não poderia deixar de escrever algo sobre o “Kyoji san”, que mostra que tem Sangue de Corredor.

 

Redação