Katsuomi, o samurai das corridas aos 81 anos

Meu nome, Katsuomi Kawakubo, nasci no Peru, em Palpa, distrito de Huaral, em 1936. Lá meu pai era dirigente de uma firma produtora de algodão, filial de renomada empresa Japonesa do ramo. Em 1936, meu pai foi encarregado pela Federação Japonesa das empresas exportadoras e importadoras para America Latina, a frente do Campo de Experiência em Costa Rica, para dirigir plantio de algodão e arroz até setembro de 1941, quando foi chamado de volta ao Peru pela empresa, sempre acompanhado da família.

A Guerra do Pacífico (2ª Guerra Mundial) foi iniciada em dezembro de 1941 e mudou totalmente o destino da Familia Kawakubo

 

Eu, Noami e o amigo Kyoji, no Parque Universal

Com o rápido avanço Japonês na Ásia, muitos americanos ficaram retidos na área controlada pelo Japão. Essa situação forçou os USA negociarem então, através de país neutro – Suiça – a troca desses prisioneiros que compreendia, na maioria, diplomatas, funcionários de empresas, professores, estudantes, líderes religiosos e seus familiares.

Assim ocorreu a primeira e a segunda troca em 1943 e foi nesse momento que nossa família foi levada aos USA, isso em junho de 1942 para fazer parte da segunda troca. Em território americano ficamos no campo de concentração chamado Seagoville no Texas, permanecendo até setembro de 1943, quando embarcamos de Nova York rumo ao Japão.

Nas instalações de Seagoville, que era anteriormente reformatório feminino, tivemos liberdade dentro da área com tratamento razoável.

Então minha família foi obrigada a voltar para o Japão, para a terra do meu pai. Eu nasci no Peru, apesar de sangue japonês, me considero peruano. Ficamos 13 anos, no Japão. Época de guerra, tempos difíceis, muito sofrimento, só quem viveu consegue imaginar como era a vida naqueles tempos. Moramos em vários lugares no Japão, fugindo das dificuldades.

Como nossa família sempre viveu no exterior, meus pais queriam voltar para o Peru, mas não conseguimos porque o governo peruano não aceitava que voltássemos, nós ou qualquer outra família japonesa.

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Outra opção foi conversar com amigos que moravam no Brasil e em 1954 meu pai chegou aqui e depois chamou toda família. Como estava com problema de saúde fiquei por mais 11 anos. E em 1967, recebi uma carta informando que meu pai estava doente, aí eu decidi vir para cá. Cheguei no Brasil em 1967.

Turistando e correndo com amigos

Fui trabalhar em escritório de engenharia de projetos onde meus irmãos trabalhavam e não sabia uma palavra de português. Nunca gostei muito de falar, sempre fui muito tímido, meu negócio era ficar no escritório, o dia inteiro trabalhando, saindo tarde da noite. E para falar a verdade, não tiver sofrimento como outros imigrantes porque minha família já morava aqui e tudo foi um pouco mais fácil. Outra coisa que fiz foi entrar para o “Coral da Colônia Japonesa”, junto com meus irmãos. Entrar para o Coral foi uma forma de buscar ter um pouco de vida social. Esse período do Coral foi muito agitado principalmente no período de 68 a 69, já no convívio de alguns amigos fora da família. Fiquei durante cinco anos e no Coral eu tive a sorte de conhecer a Noami, aquela com quem viria a me casar: estamos casados há quase 48 anos e temos um filho que nos amamos muito.

Cantando no Coral, 1968

Durante quase toda minha vida, a quase que a totalidade de meu tempo era para o trabalho. Em muitos anos meu chefe me dava carona até minha casa e ele sabia que levava ainda trabalho para casa, ficava trabalhando até tarde. De repente comecei a sentir o peso da idade e aí pensei:” vou precisar fazer alguma coisa”. Fui ao médico para fazer todos os exames e para ver como estava minha saúde. Quando o cardiologista viu meus exames ele me falou: “você está ótimo, mas vamos fazer um pouco de exercício”.

Um dia estava no Parque do Ibirapuera e vi algumas pessoas correndo. Eu pensei: “será que consigo correr”? E fui atrás… não consegui correr nem 100 metros! Mas mesmo assim continuei seguindo devagar…

Troféu da Maratona da Disney aos 81 anos.

Um dia a Naomi foi falar com o Professor Tavares que a explicou o tipo de trabalho que era feito com os atletas e ela me recomendou procurar o Professor, isso em 2005 e até hoje estou correndo. Fiz várias competições: 03 vezes a Meia Maratona do Rio; a Meia Maratona de Buenos Aires; algumas São Silvestre e outras provas…

Mesmo nos meus 80 anos idade eu tinha um sonho, meu grande sonho era correr uma maratona e então em 2016 conversei com o Professor Tavares que me inscreveu para o “Desafio do Dunga 2017”, na Disney. Este desafio é composto por um conjunto de 04 (quatro) corridas a serem feitas em 04(quatro) dias seguidos. No primeiro dia você corre 5km: no segundo, você corre 10km: no terceiro dia você corre 21km e no quatro dia corre a Maratona. Realizar esse sonho, para nós foi como ganhar sozinho na loteria: NÃO TEM PREÇO!

Minha primeira maratona 42,187 Km e eu consegui além de trazer para o Brasil o Troféu de 1º Lugar da Faixa Etária, nunca imaginei, nem em meus melhores sonhos eu via essa possibilidade.

Não importa a idade, sempre haverá espaço para você realizar seu sonho!

 

Sonho realizado e logo após retornar da Disney senti algo no intestino.

Fui ao médico e qual não foi a minha surpresa quando em 07 de julho de 2017 tive que fazer uma colonoscopia e no dia 05 de agosto tive que fazer nova cirurgia, quando foi retirado um pedaço do intestino e um pedaço do fígado que estavam com metástase. Iniciamos então as seções de quimioterapia que na primeira etapa não surtiu efeito. Voltei novamente a fazer novas seções, sem prazo específico para terminar.

Hoje faço acompanhamento médico constante e continuo com minhas corridas. São elas e os amigos que me fazem a diferença.

Estou bem, me sinto muito bem!