Maria Silva, foi amor a primeira corrida

Quem participa do mundo das maratonas e ultramaratonas, é praticamente impossível não conhecer uma simpática “senhora” de 62 anos (cujo condicionamento físico causa inveja em muitas meninas) com seus cabelos brancos, camiseta amarela, viseira branca e um sorriso largo no rosto, que desfila pelas ruas do Brasil e do mundo ao percorrer longas distâncias.

vem ai a pequena notável…

Quem sou eu?

Meu nome é Maria Silva, nasci em 05 de agosto de 1956 em Teresina, Piauí. Formada em Enfermagem pela Universidade Bandeirante com Pós-Graduação em Nefrologia pela Unifesp. Sou mãe, tenho uma filha única, já encaminhada. Sou avô da Valentine, aquela que fala “corre vovó, corre vovó, corre…”. Tirando todos os imprevistos dessa longa caminhada da vida me sinto realizada, tenho uma família, sou feliz: uma filha, uma neta, um genro que são pessoas fantásticas e pra fechar com chave de ouro tenho muito e muitos amigos, por isso eu me sinto uma mulher realizada!

Hoje aposentada, tive a oportunidade de praticar esporte, aquilo que eu sempre almejei e não tive oportunidade na juventude. Mas nunca é tarde para iniciarmos uma nova trajetória e essa trajetória me trouxe alegria, qualidade de vida , viagens e muitos e muitos amigos.

Iniciei correndo 5 km orientada pelo Professor Luiz Eduardo Tavares.

Momento desafiador?

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O momento mais desafiador é a largada. É o momento que eu penso “meu Deus” me proteja e eu me jogo, me entrego na corrida. Vou embora e por uns 03 ou 04 kms eu faço aquilo que mais me dá prazer que é sair correndo às vezes no pace de 4” por km. Isso para mim é fantástico e depois pesa!! De repente passo a fazer 13” por km mas isso não me entristece… independentemente de qual é o meu pace, vou feliz do mesmo jeito. E o mais engraçado é que a Maria Jose tem vários picos em uma corrida.

O que estou fazendo aqui? Correndo!

Tem hora que ela fala “o que você está fazendo aqui”, por que você está aqui, isso não é pra você, aí é aquele momento depressivo “não, não era pra mim está aqui, aí eu ando, ando, às vezes até cabisbaixa mas quando eu vejo aquele pórtico de chegada eu me transformo e eu penso, sorrio e às vezes até choro: é agora, é agora a minha realização, aí vou buscar no céu e na terra todas as forças que preciso, onde os 42 kms foram deixados para trás e você não tem mais pernas para nada e a força chega, não sei de onde e te leva e eu chego linda, chego bonita, maravilhosa na chegada. E as pessoas falam: nossa se você tivesse corrido assim o tempo nateiro você teria ganho… esse é o meu momento! O momento da chegada é o meu momento de entrega.

No Rio de Janeiro, não lembro exatamente o ano, vinha acompanhando aquele grupo, todo mundo junto e tal, de repente aquele grupo vai embora e eu fico naquele meu momento de tristeza, de pura solidão, apesar de ter ao meu lado centenas de pessoas. Esse é o meu quilometro de tristeza e eu penso: não acredito que aquele grupo foi embora e eu fiquei… agora ninguém vai me passar e eu disparei como se estivesse começado a corrida, foi um tiro, foi uma chegada linda porque as pessoas que estavam assistindo aplaudiram efusivamente. Elas efetivamente me levaram no colo, parecia que estava voando e eles batiam palmas. Foi lindo demais!!! Adoro tudo isso: momento tristeza, momento depressão, momento alegria. É exatamente isso que a Maria José sente em uma corrida.

O que eu ganho com a corrida?

O que eu ganhei com a corrida? Ela mudou a minha vida. Eu ganhei mais paciência, mais tolerância, mais sabedoria, além do ganho da saúde. Você ganha com o psicólogo, você fica mais evoluída. Eu agradeço a corrida, ela te molda e eu sou muito grata a Deus por tudo isso que eu ganhei com a corrida.

A corrida para mim é um divertimento, eu aproveito cada momento. Eu observo as pessoas e as paisagens. Eu ouço as pessoas falarem: olha os cabelos brancos dela… e eu na corrida eu não me cobro. Eu vou correr como um ato de puro divertimento. E é onde eu não tenho horizonte, limites.. e isso me dá motivação.

Quantas corridas?

De 2006 até hoje devo ter feito 250 corridas, são 250 manhãs acordando às 4:00, o banho, o café da manhã, o frio na barriga e isso é uma coisa que não tem preço. Às vezes as pessoas perguntam “é, mas porque você vai correr se você não ganha nada” e eu retruco, como não ganho!!

Alguns amigos que a corrida me deu.

Ganho saúde, ganho divertimento, ganho amigos. Meu círculo de amizade cresceu muito com a corrida. Eu trabalhei 25 anos na enfermagem, em hospitais grandes e eu tenho, posso dizer 04 (quatro) amigos que ficaram até hoje. A corrida me proporcionou uma infinidade de amigos. A única barreira que sinto é não ter um segundo idioma. Um segundo idioma pode te levar ao final do mundo, nós vamos, mas temos nossas limitações. Mas isso não impede o relacionamento porque a corrida em si é um idioma universal.

Corri na Turquia no único dia em que a ponte fecha entre a Europa e Ásia. Nesse percurso um italiano me acompanhou, o italiano queria literalmente me levar no colo, tanto o carinho que ele tinha pelo Brasil. Ele fazia referências por coisas brasileiras, com os amigos. E o italiano foi embora e faltando um Km para a chegada quem eu encontrei? O italiano morto, quando ele me viu gritou “brasilian”. Isso são coisas que não tem preço.

A Comrades, ah a Comrades!!!

A Comrades na minha vida de corredora é um capítulo à parte. A minha primeira Comrades foi em 2012 e era o discurso de descida.

Voltando da 1ª Comrades

Eu fui sem saber absolutamente nada, só sabia que iria correr 89 kms. A única coisa que pensava era “gente, vou correr muito tempo sozinha, será que não vou me perder”? Mas quando você chega na largada às 5:30 da manhã, naquele frio. Antes tem o hino o “Shosholoza” que é mais que um hino, é uma prece e não tem como você não se desmanchar em lágrimas. Chorei feito criança, pensando, em pouco mais de um minuto toda minha vida passou na minha frente: Teresina, chegada em São Paulo, as dificuldades, o trabalho de enfermagem, minha filha, minha neta, minha primeira corrida e agora eu estava ali, sozinha apesar de tanta gente…

Eu estou ai, alguém me ache, por favor?

Depois tocam “Carruagem de afogo” que é uma outra emoção que parece que o coração vai explodir. E depois tem o tiro… e você sai por aquelas ruas as cinco horas da manhã um frio de 02 ou 03 graus e gente dos dois lados da rua te apoiando, te aplaudindo… e é assim a corrida inteira. Durante todos os 89 kms você não corre sozinha. E elas interagem com você o tempo todo: “obrigado por estar no nosso país”, “Brasil”, “ go go Maria”… aí eu falo, to meia triste porque não terminei a Comrades, não volto mais… no km 75 encontrei um amigo, me abraçou e me jogou para cima, pronto agora que morri mesmo… Já fiquei no km 79, já fiquei no km 88,8, a poucos metros da chegada e no km 80 e nada disso me entristece porque a corrida faz parte da minha vida. Correr não é só chegar! O que vale é a interação, a energia que a corrida emana desde a largada até onde eu consegui. Nunca foi uma desistência, foi uma desclassificação, tem uma diferença entre desistir e desclassificar. Então, por isso volto sempre porque enquanto a Maria Jose estiver correndo, estarei na África do Sul.

Para mim a corrida é uma festa de aniversário

O que precisamos para uma vida de corredora?

Uma boa alimentação, o repouso é fundamental e gostar do que você faz. Eu amo correr! Eu faço isso com muito carinho. É o dia em que levanto cedo super disposta porque eu sei que vou participar de uma festa, de uma festa de aniversário onde eu só vou se for convidada e a minha inscrição é o meu convite para a festa. Eu não entro na sua casa sem ser convidada, então, eu tenho todo esse carinho pela corrida. Às vezes até par treinar me dá uma preguiça, mas para participar de uma corrida eu vou linda e maravilhosa porque é uma coisa que me dá prazer, encontrar amigos e dá uma parada para dar um abraço em amigos, não tem preço. Um, dois minutos não afeta a minha disposição. A corrida para mim é isso: uma grande festa!

O meu legado?

O meu legado será deixar o meu estilo de vida: muita gente vai lembrar da Maria José, aquela pessoa séria que estava sempre nas corridas. A corrida me leva a vestir minha melhor roupa, onde levado cedo e vou me encontrar com minha turma. Certa vez está em Poços de Caldas é um senhor chegou para mim é falou “ eu te conheço de algumas corridas pelo mundo” e eu disse “será! então a gente já correu junto”.

A primeira corrida a gente não esquece

A primeira medalha.

A minha primeira participação oficial em corrida foi em 2006, na Maratona de São Paulo. Corri os 5 kms e terminei com 43 minutos, com muitas cãibras, muito feliz, mas muito feliz, feliz com aquele tempo. Para mim foi como se tivesse participado da Maratona de São Silvestre. Você pode participar de 1000 maratonas pelo mundo afora, mas se não participou da Maratona de São Silvestre (risos), ainda não correu algo desafiador. Aqueles 5 kms teve um valor inestimável, foi aquela corrida que me abriu definitivamente as portas para esse novo mundo que não conhecia: o mundo da corrida de rua e me apaixonei perdidamente, foi amor à primeira corrida!

Desafios na maleta?

Ainda tenho alguns desafios para enfrentar. Tenho algumas Maratonas programadas para quando Deus me permitir: Maratona de Londres, pelo valor, pela beleza, quero correr pela rainha; a Maratona de Tokyo, correr no Japão porque tenho uma relação muito próxima e um porque me atrai muito, inclusive minha filha é mestiça, mistura de nordestino com japonês, sonho em correr lá um dia e, a Maratona do Sol da Meia Noite, conhecer o outro lado do mundo, quero ter certeza de que Terra não é plana (risos).

E 2019, promete muito?

A promoção e intensa: vou iniciar com os 10 k do aniversário da cidade São Paulo. É uma corrida que participo e tenho um carinho especial; a volta ao Cristo em Poços de Caldas; a Meia Maratona de São Paulo, a Maratona de São Paulo; Recife, na Corrida das Praias uma maratona em homenagem ao Lulinha, Maratonista muito querido, meu amigo; a Maratona Nilson lima, em Uberlândia; a Comrades, aqui um parêntesis: Deus vai permitir, estarei lá as 5 da manhã a postos, linda e maravilhosa, para a largada; a Maratona de Foz do Iguaçu, essa corrida está com 11 edições e já participei de 10; Maratona de Sorocaba, Maratona de Mogi das Cruzes, aff. Hoje estou com o Branca, o Vanderlei Severiano, ele é uma pessoa fantástica e eu pergunto, professor posso ir e ele diz vá e se divirta guerreira. Ele não me cobra, os trofeus que ganhos na categoria vem, não porque eu busque, mas porque eles veem.

59 anos e 59 quilômetros

Me dei um presente inusitado. Ao completar 59 anos me presenteei com aquilo que mais gosto: com uma corridinha de 59 kms, saindo de casa às 7 da manhã e retornei as 16:30 exausta, mas feliz e foi uma coisa que fiz sozinha. Corri 59 kms nos meus 59 anos, esse foi um presente exclusivo.

Daqui a 10 anos? 

Daqui a 10 anos perdendo e tenho quadrante certeza que estarei incuta, bonitinha, inteira, feliz da vida, eu tenho essa convicção. Hoje eu sei que já perdi o vigor da pele, perdi força, sinto ainda que tenho forças para continuar. Quando você faz 50 você trabalha na contagem regressiva e eu não pretendo me perder nessa regressiva da vida. Portanto, estarei correndo, linda, leve e solta.

 

Jose Mauricio Cabral falando para um ídolo – Maria José da Silva, Maria Silva, Zezé.

Uns a chamam de Mito, eu a chamo de Ídolo.

A melhor maneira que eu tenho para falar algo sobre ela é contando dois causos que aconteceram no início de 2010 poucos meses depois de nos conhecermos.

Essa é a minha amiga Zezé.

Depois de feita a Mini Maratona de Paraty sempre tem aquela passagem obrigatória pela sorveteria e enquanto nos refrescávamos seguíamos papeando. Em dado momento comentei ter recebido um convite para correr em Buenos Aires e perguntei a ela qual seria mais legal, Maratona ou a Meia. A resposta foi curta e direta: “Ah, a Maratona, né Cabral”!

Um tempinho só depois estou na Ponte Estaiada esperando a largada da Maratona de São Paulo ela chega, me cumprimenta e pergunta para qual distância estou indo. Eu respondo que iria para os 42 aí ela diz: ” Eu também! Mas vou devagar porque fiz uma prova ontem e estou um pouco cansada”. Daí eu falei que ela era corajosa por enfrentar uma prova longa e perguntei qual tinha sido a prova da véspera no que ela responde: “Foram os 52 do Desafrio Urubici”.

Sempre achei super pitoresco o nome dessa prova justamente por Urubici ser considerada uma das cidades mais frias do Brasil.

Essa é a minha amiga Zezé!

 

Quando fala um amigo – Marco Costa

Zezé: a MITO-CORREDORA

 No mundo das maratonas e ultramaratonas, é praticamente impossível não conhecer uma simpática “senhora” de 62 anos (cujo condicionamento físico causa inveja em muitas meninas) com seus cabelos brancos, camiseta amarela, viseira branca e um sorriso no rosto, que desfila pelas ruas do Brasil e do mundo ao percorrer longas distâncias. Sim, estou falando da Zezé e descreverei abaixo o porquê a chamo carinhosamente de MITO.

Eu e a Mito.

Vamos começar pela origem do apelido “MITO”, pois tenho certeza que muitos concordarão comigo. Apesar de já termos nos conhecido antes, nunca tivemos um contato tão próximo quanto na viagem para a Disney de 2016 para fazermos o “Desafio do Dunga”. Durante os 10 dias que estivemos na “terra do Mickey”, tive a oportunidade conhecer novos amigos e sempre permanecemos muito próximos nos passeios entre as 4 provas que compunham o desafio. Dentre estes amigos especiais, estava a Zezé com toda a sua simplicidade e humildade. No terceiro dia de prova (no caso, a meia-maratona), eis que ela aparece no saguão do hotel com a camisa do São Paulo FC. Por eu também torcer para o tricolor paulista, cheguei para ela e falei “Zezé, com esta camisa você ganhará a prova!”. No estante seguinte, fiz uma analogia com o Rogério Ceni (principal ídolo do SPFC, que tinha acabado de encerrar a carreira) e completei:” Zezé! Você é MITO!!”. E não é que, conhecendo a vida e participação dela, este apelido fez justiça?

Justificaremos abaixo:

Até os cinquenta anos de idade, a corrida de rua sequer fazia parte dos planos da vida da Zezé, até que, no ano de 2006, a organização da Maratona de São Paulo também colocou uma prova de 5km e ela resolveu participar. Batalhadora e com muita garra desde quando veio ao mundo, ela não só concluiu os 5 km como nunca mais parou de participar de corridas. A partir daí conquistas nos desafios propostos passaram a ser suas companheiras em cada prova.

Além de troféus, medalhas e camisetas, a Zezé ganhou muitos amigos e admiradores (um destes é quem escreve este texto), que estiveram presentes em muitas das provas realizadas no Brasil e no mundo, com números impressionantes para uma corredora de 62 anos. Sugiro que peguem um papel e uma caneta para anotar: até o ano de 2018, foram “apenas” 69 maratonas (42,195km), 23 meias-maratonas (21 km), 17 São Silvestres, 6 corridas de 16 km e de 18 km, 95 provas de 10 km. Só fiz uma “breve” pausa para citar a participação das ultramaratonas de 100 km e na Comrades, de 89 km.

Quem a encontra nas provas sempre sorrindo certamente não sabe o quanto ela enfrentou adversidades (e não foram poucas) desde a infância no Piauí para se tornar enfermeira, profissão esta que ajudou a sustentar e investir nos estudos da filha, que brilhantemente se tornou advogada. Diante dos desafios que a vida proporcionou, ela nunca deixou de ser otimista e de manter a integridade.

Unindo as conquistas nas corridas com a batalha pessoal na vida, não é justo chama-la de MITO? Não poderia deixar de prestar esta homenagem a Zezé, uma das grandes amigas que fiz no mundo das corridas e que faço questão de fazer ligações e de visita-la (quando possível) na sua loja para colocar a conversa em dia.

Por isso, quando encontrá-la nas ruas, nas provas e nos parques correndo, não deixe de fazer sua homenagem a ela ao gritar “MITO!!!” porque ela realmente merece. Além disso, tirar foto com ela é uma ótima recordação e inspiração para sabermos que é possível atingir os objetivos que propomos a nós mesmos.