Uma vida a correr, uma corrida e uma lesão

Acontece que nos últimos tempos, tem sido muito complicado conjugar tudo na minha vida. Há sempre qualquer coisa que tem de ficar para trás. Como a família e o trabalho são sempre a prioridade, quem acaba por sair prejudicado é o blogue (que embora seja parte do meu trabalho, é uma parte menor) e todas as áreas de lazer da minha vida – as corridas, as idas ao ginásio, os filmes, as séries, os livros, as jogatanas de PlayStation, os jantares e almoços com amigos, os passeios.

Ainda assim, na semana passada, consegui dar um saltinho a Cabo Verde – foram só cinco dias -, e esperava, finalmente, poder respirar e recuperar toda essa parte de diversão que tenho desleixado. Fiz um plano de treinos rigoroso, com uma corrida e uma hora de ginásio por dia, levei dois livros para ler, vários filmes, séries, e, claro, bastante trabalho, que despacho sempre entre as 7h e a hora a que a minha mulher acorda, e e depois de almoço, quando normalmente ela dorme a sesta – assim, ninguém se chateia).

As coisas até começaram a correr relativamente bem. Logo no primeiro dia, ao fim da tarde, calcei os ténis e aventurei-me pelas ruas do Sal. Apesar do vento fortíssimo, de algum frio, e de um piso extremamente irregular, consegui fazer 10 km. Era mais uma etapa na preparação da Maratona de Paris, que é já a 6 de Abril. No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, lá voltei a equipar-me e fui para a rua, desta vez procurando um caminho diferente. Corri ao longo de toda a avenida que liga o centro de Santa Maria e os hotéis Riu, contornei o Riu Funaná, e quando estava a regressar, pimbas!, um entorse no tornozelo. Mais um. Para aí o 29.º nos últimos cinco anos. Sempre o mesmo tornozelo, o esquerdo, e sempre pelas mesmas razões – piso qualquer coisa durante a corrida. Desta vez, ia distraído com a paisagem, a olhar para todo o lado, e pus o pé numa cova, mas na parte lateral, o que fez com que o pé torcesse todo. Senti imediatamente o impacto fortíssimo, como se me tivessem espetado qualquer coisa, e comecei aos saltinhos, ao pé coxinho, durante uns cinco metros. Depois tentei pôr o pé no chão, e continuar a corrida, para analisar a extensão da dor, porque já fiz vários entorses menos graves, ligeiros, que me permitiram seguir com o treino. Mas desta vez não. Ainda corri uns 100 metros, mas as dores eram imensas. Estava a quase 4 km do hotel, num descampado deserto, longe de tudo, completamente sozinho, coxo e cheio de dores. Não tive outro remédio senão continuar a arrastar-me por aquele cenário deprimente. O chão era de terra batida, havia imenso lixo, carcaças de edifícios deixados a meio, projectos de hotel que não passaram de meia dúzia de blocos de cimento, um território que mais parecia um cenário de guerra do que um local agradável para correr. Era a primeira vez que passava ali, não fazia ideia do que iria encontrar nas traseiras dos hotéis, mas era aquilo. E as dores fortes, e nem uma pessoa no meu alcance visual.

Quando ia mais ou menos a meio, a ouvir António Zambujo no iPod, perdido naquele pedaço de terra sem graça, avistei um cão ao longe. Era grande, escuro, peludo e corria na minha direcção. Eu até gosto de bichos, sobretudo de cães, mas tenho um trauma com cães pretos e grandes, já que quando era miúdo, aos 7 anos, fui mordido três vezes por um, uma na mão, outra na orelha e a última na cabeça, quando jogava ao berlinde. Só dessa vez levei 18 pontos na cabeça. Claro que comecei logo a ver o cenário: o cão vem atacar-me, claro, que outra explicação pode haver. E eu coxo, fragilizado, sem poder correr, e logo por azar sem nenhum pau ali à mão para segurar. Procurei por pedras, mas o bicho estava demasiado próximo. Assumi uma posição de combate, e pensei, “olha, vem, que eu chego para ti”. O cão aproximou-se, cada vez mais, sempre na minha direcção, e… passou por mim, continuando a sua marcha. Não me ligou nenhuma. Nem sequer olhou para mim. Lá foi ele à sua vida, já que seguramente deveria ir atrasado para algum compromisso.

Mais descansado, continuei a arrastar-me até ao hotel. Cheguei uns 50 minutos depois, triste com a lesão, e já a pensar que poderia ter acabado ali o meu sonho de participar na Maratona de Paris.

Entrei no quarto, e estava tudo a dormir – a minha mulher e o Mateus. Fui ao frigorífico, saquei de uma garrafa de água gelada, estendi-me no sofá, fiz uma pilha de almofadas e pus o pé elevado, com a garrafa encostada ao lado inchado do tornozelo. Já era demasiado tarde para ir à farmácia.

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No dia seguinte, lá fui comprar Reumon Gel, com que passei a besuntar o pé três vezes ao dia. Entretanto, descobri mais uma maravilha das meias de compressão, que uso para correr. Agarrei numa e usei a parte compressiva para me apertar o tornozelo, como se fosse uma ligadura apertada. E a coisa funcionou na perfeição. Fiquei com muito menos dores, comecei a conseguir meter o pé no chão ao fim de dois dias, e o inchaço desapareceu rapidamente.

Claro que só senti que já podia voltar a correr quando cheguei a Portugal. Mas, cá, falta-me o tempo. Ainda assim, tenho conseguido fazer alguns treinos, e volto a acreditar que será possível ir a Paris a 6 de Abril. Agora, é esperar que o tornozelo não quebre. Entretanto, já fui a uma consulta com um especialista em pé e tornozelo, que me irá fazer uma série  de exames para ver se consigo resolver isto de vez, ou, pelo menos, minimizar os riscos de isto acontecer tantas vezes.

 

By ricardo Maedtins Pereira