O embaixador da Comrades, Nato Amaral

Sangue de Corredor teve o privilégio de em uma noite chuvosa e fria de São Paulo entrevistar, esse que é o Rei da Comrades, Nato Amaral.

Ele nos recebeu em seu apartamento com a simpatia, a áurea e a gentileza própria dos grandes esportistas.

Foi uma entrevista singular. Cada palavra era articulada de uma forma que não deixava dúvidas de quem é esse homem que ama a corrida, os desafios, a família, os amigos e a vida.

A seguir o leitor pode ter uma breve noção de quem é esse homem, nato, para a vitória.

Quem é Nato Amaral?

Sou uma pessoa comum, que tem anseios, sonhos, medos e que luta muito para conquistar seus objetivos.

Anúncios
Cada lágrima traduz o esforço.

Não me vejo diferente de qualquer outra pessoa, no sentido de ser uma pessoa humana, falível. Me dedico muito para diminuir as chances de fracasso, sempre com foco no sucesso. Não tenho medo de errar e por não ter medo de errar é que acabo acertando, porque assumo os riscos e me preparo muito para tudo que enfrento na minha vida. Particularmente em relação ao esporte, o meu medo é tamanho de não conseguir realizar uma prova de grande proporção, como é a Comrades, que eu treino demais, treino muito, me preparo de corpo e alma. Então, quando uma pessoa me vir terminando uma prova ou com a medalha no peito, jamais eu quero que ela venha a imaginar que a conquista foi fácil. Quem está por trás daquela medalha, daquela conquista, treinou muito, lutou demais, teve muita entrega, dedicação, esforço, renúncia, fez de tudo para que naquele dia realizasse o seu melhor…

Como é o Nato Amaral pai, esposo e amigo?

Sou uma pessoa muito presente e extremamente divertida. Gosto de dar um ar de divertimento, distração, brincadeira e alegria para tudo o que faço.

No caso do Nato Amaral pai, quando estou com minha filha Carolina, de 5 anos, e às vezes preciso chamar a atenção dela, tenho que dizer que estou falando sério e ser mais enfático, de tanto que brinco com ela. Mudo o tom de voz para ela perceber que não é o papai brincalhão, é o papai que educa, ensina e orienta. Há que se levar muito a sério o papel de educador. É assim que gosto de levar a vida, com bastante alegria e simplicidade, evidentemente separando as coisas importantes que merecem ter aquele caráter de seriedade.

Como marido também sou muito presente.

Um dos pilares fundamentais para mim e para minha esposa Josi, que temos uma vida profissional bastante desgastante e que demanda muito de nós, é praticar atividades físicas regularmente.

É a nossa opção de lazer, de bem-estar, de autoestima, de reconhecimento, uma série de benefícios, de atributos que acaba nos proporcionando. No meu caso, treinando para ultramaratonas, é uma atividade física que demanda demais, que exige muito de mim, mas é o meu esporte e, repito é a minha opção de lazer, uma escolha de vida. E procuro colocar como um outro pilar fundamental o equilíbrio, uma forma de balancear, de saber dosar o trabalho, a família, e o lazer, sendo o esporte inserido como uma das formas de lazer.

Como é a preparação no dia a dia para as corridas?

Com relação a alimentação, no período de preparação para a prova, eu sigo uma dieta com certa rigidez e que me dará dar uma ótima condição no dia da competição, de modo que, durante o período de preparação, eu possa extrair o melhor diante de minhas limitações fisiológicas, de biótipo e genéticas. Uma alimentação regrada e balanceada com proteínas, carboidratos e minerais. Na véspera de treinos mais longos ou intensos, procuro aumentar levemente a ingestão de carboidratos e dosar também uma adequada ingestão de proteínas, seja do próprio alimento como também suplementação, para proporcionar uma boa recuperação e construção muscular, de acordo com cada etapa do treinamento. E quando é uma fase de exigência de treinamento bem maior, entra também aquela preocupação da periodização da musculação com exercícios de resistência muscular, diminuindo a carga e aumentando o número de repetições, ou seja, ao invés de fazer 03 series de 10 ou 12 aumento para 20 ou 25 repetições com menor peso, dando aquela sensação de queimação nos músculos, objetivando trabalhar outras fibras e aumentando a resistência muscular, que é o que um atleta precisa para uma competição de longa duração.

Na semana anterior à prova, sou uma pessoa que fica muito introspectiva e concentrada. Foco demais naquilo que me propus a fazer. Em muitos momentos do dia, fico realmente num momento só meu, exercitando a mentalização, energização e projetando tudo aquilo que vou fazer nos dias que antecedem a prova e no dia da competição. Visualizo um cenário favorável, uma condição vitoriosa, me sentindo bem durante a prova. Me enxergo largando, correndo no meio do percurso e especialmente visualizo me aproximando da linha de chegada. Tudo em uma atmosfera favorável, vibrando com meus amigos, com as pessoas próximas, me realizando após tudo aquilo que fiz e também o que me privei de fazer nos meses de preparação.

Cruzar a linha de chegada é a coroação de toda essa etapa de meses de treinamento.

O que é a Comrades para o Nato Amaral

Coração batendo forte, pura emoção

Posso dizer que eu não entrei na Comrades, foi a Comrades que entrou em mim. Não consigo me enxergar dissociado dela, tamanha a identidade que tenho com essa prova e com a quantidade de aprendizado que já extrai dela. Meu saldo, hoje, é muito devedor em relação à Comrades, eu devo muito a ela. Já recebi tanto dela, ela já me proporcionou tanto que hoje estou em uma posição de retribuir da melhor maneira, da toda forma que puder. Quando fui nomeado Embaixador oficial da prova em 2008, passei a exercer um importante papel voluntário, de muita doação de minha parte para difundir o Espírito da Comrades onde quer que eu vá, onde quer que eu esteja, ou mesmo à distância.

O que é o Espírito Comrades?

Comardes é uma palavra da língua inglesa que significa “camaradas”. A prova foi criada como um memorial vivo em homenagem aos heróis mortos na I Guerra Mundial e, quando se difunde o Espírito da Comrades, se difunde o espírito da camaradagem, o espirito de ajuda ao próximo, de estender a mão para alguém sem esperar nada em troca. É realmente o princípio de você se doar a uma pessoa, seja participando da prova junto com você ou em qualquer lugar ou situação de nossa vida. Quando você participa de uma prova como essa, você acaba ficando contagiado de tal forma que aquilo te enriquece como ser humano. Não falo só por mim, mas por todas as pessoas que conheço ou a maioria delas que participaram dessa prova e já sentiram essa experiência, essa emoção.

Li recentemente uma declaração de um grande campeão dizendo que não existe prova mais transformadora do que a Comrades, ou seja, será uma pessoa melhor após viver essa experiência.

É uma quantidade imensa de atributos e situações que podemos colocar para se definir o que essa prova representa como um todo e o mais difícil ainda é expressar o que ela representa para mim, tamanho a importância que ela tem na minha vida, não só pela competição em si, mas pelo aprendizado e ensinamento e a infinidade de amigos que ela trouxe para minha vida, seja no Brasil, seja no exterior.

Considerando a importância que a Comrades tem para você, como foi a emoção do momento em que você cruzou a linha de chegada pela décima vez e saber que se tornara um Green Number?

Recebendo meu Green Number de Bruce Fordyce

Foi algo mágico, a realização de um sonho que eu arduamente construí por 10 anos. Aproveitei cada momento, cada segundo. Desde a preparação, a viagem com minha esposa e minha mãe, a concentração para que tudo corresse conforme planejado. No dia da prova, então, nem tenho palavras para descrever o que foi aquilo. Todos os quilômetros foram desfrutados como se fossem os mais importantes da minha vida. E, à medida que a linha de chegada ficava mais próxima, a emoção crescia exponencialmente. Entrar naquele estádio e cruzar aquele cobiçado pórtico foi a coroação de uma vida inteira dedicada ao esporte, eternizando o meu número de peito na maior de todas as ultramaratonas do mundo, a Rainha das Ultras. Eu não tinha a verdadeira noção do legado que aquilo poderia representar, mas sabia claramente que estava abrindo portas para dezenas de outros brasileiros que estão percorrendo essa mesma jornada em busca de seu Green Number. Atualmente, além de mim, temos como brasileiros detentores do Green Number (até a edição de 2017) o André Arruda, Ana Márcia Gomes, Wilson Bonfim e Zilma Rodrigues.

Tornar-me o primeiro brasileiro e latino-americano da história a conquistar o Green Number no início não foi o meu objetivo primordial.

Até eu completar a minha 5ª Comrades, em 2006, eu ainda estava empatado ou atrás no número de medalhas de outros atletas e, portanto, não tinha a projeção de ser o primeiro. Porém, daquele ano em diante, quando eu fiquei isolado na liderança, passou a só depender de mim. Ai sim tornou-se uma obsessão não pular nenhum ano e assegurar que eu fosse o primeiro.

Atualmente com 15 Comrades, minha meta é completar sempre a próxima, subindo para 16 medalhas. E depois 17. Até chegar na vigésima que, se tudo der certo, ocorrerá em 2022. E em 2025 estarei na 100ª edição. Um degrau de cada vez, e assim construímos uma carreira de sucesso e grandes conquistas. E que sirva de exemplo para muitos outros brasileiros honrarem a nossa bandeira mundo afora, exaltando o nosso país.

O embaixador Nato Amaral

Ser Embaixador da Comrades, mais do que as pessoas imaginam, é uma responsabilidade muito grande. Tanto a Organização como os participantes esperam sempre muito de mim, tenho que retribuir para os dois lados e faço isso com toda a minha energia, paixão e alegria. Com isso, acabo sendo visado por ser o representante oficial da prova no Brasil, mas levo isso com total naturalidade, pois amo o que faço.

Mais do que a minha consciência e índole de querer fazer as coisas certas e zelar pelo cumprimento das regras, essa minha responsabilidade fica maior como Embaixador da Comrades. Chega a ter casos de pessoas que não conseguem se qualificar para prova e insinuam tentando estimular para apelar ao famoso jeitinho brasileiro. Nesses casos, seja através de mim ou entrando diretamente em contato com a Organização, tento buscar algum meio legal e oficial de validar a participação do atleta. Jamais vou estimular uma fraude e, se souber que isso aconteceu, tenho o dever de denunciar. Afinal, muitos não sabem, mas eu assinei um Termo de Compromisso que estipula meus direitos e deveres como Embaixador, dentre eles difundir o Espírito da Comrades e zelar pela integridade e cumprimento das regras.

O que é o Unogwaja Challenge?

Unogwja Challeger

Esse desafio remete à história da prova também. Em 1931, um jovem atleta sul-africano venceu a Comrades aos 19 anos de idade e ele se tornou o mais jovem campeão da prova, recorde esse que jamais vai ser batido porque hoje a idade mínima para participar é de 20 anos. O nome dele era Phil Masterton-Smith, cujo apelido era Unogwaja, palavra da língua Zulu que sifnifica “lebre”. Dois anos depois, em 1933, o país estava sob efeito da grande depressão econômica mundial e com uma recessão terrível. Phil, sem emprego nem condições financeiras, não conseguiria custear uma passagem de trem para ir da Cidade do Cabo, onde morava, até o local da largada da Comrades, em Pietermaritzburg, que ficava a 1650 Km. Irrequieto, pensou em uma solução: 11 dias antes da prova saiu pedalando da Cidade do Cabo até o local da largada, durante 10 dias, e no décimo primeiro dia participou da prova. E concluiu em 10º lugar. Foi um feito memorável. Esse mesmo jovem, durante a II Guerra Mundial, no ano de 1942, morreu em combate. E isso ficou marcado na história da Comrades.

Em 2011 um grupo de sul-africanos resolveu repetir o feito desse jovem. Quatro amigos largaram de bike da Cidade do Cabo até Pietermaritzburg e pedalaram esses 1650 km, em 10 dias, com equipe de apoio, para no 11º dia correr a Comrades. Em 2012 repetiram a jornada e a partir do ano seguinte passou a ser um evento internacional chamado “Unogwaja Challenge”.

Para ser escolhido, o atleta passa por um processo de seleção que definirá os 12 integrantes do time de atletas. Em 2013 eu tomei conhecimento desse desafio e me inscrevi para o ano de 2014. Resultado: fui selecionado e me tornei o primeiro brasileiro da história a realizar esse desafio. Não satisfeito, me inscrevi novamente para 2015 e fiz a jornada pelo segundo ano consecutivo. Trata-se de um projeto de cunho filantrópico em que todos se dispõe a buscar doações para entidades beneficentes na África do Sul. É uma experiência inigualável, formando uma família entre os 12 atletas e os 12 ou 13 membros da equipe de apoio, dormindo em ambientes extremamente rústicos e difundindo paz e esperança em cada vilarejo visitado.

Um desafio físico extremamente desgastante, pedalando na casa de 215 km em alguns dias, uma média de 170 a 180 km em outros dias, para no décimo dia fazer apenas 38 km, preparando o corpo para a brutal ultramaratona do dia seguinte, nada menos que a Comrades, com seus 90 km, junto com a massa de 20 mil participantes, tendo como meta terminar dentro do tempo limite.

E daqui há 10 anos?

Daqui a 10 anos quero estar com saúde suficiente para conseguir correr as provas que tenho como meta.

Em 2025 a Comrades completa 100 edições e será uma prova memorável. Desde já as pessoas estão comentando sobre essa edição comemorativa, histórica.

Se para a prova de 2018 as inscrições abriram em 1º de setembro de 2017 e as mais de 21 mil vagas se esgotaram em apenas 21 dias, imagine na edição de número 100. Nunca tinha acontecido na história da prova uma procura por inscrições como essa e foi recorde de brasileiros também: 234 atletas de nosso país, a segunda maior delegação estrangeira, só ficando atrás do Reino Unido.

Na 100ª edição, estimo que as inscrições se esgotem em menos de 24 horas, tamanha a procura que provocará.

Essa eu certamente irei fazer.

Uma coisa que às vezes fico me perguntando é: qual será a última que vou participar? É algo que ainda não tenho a convicção de qual seria ou qual será, mas o tempo vai dizer e vou tomar a decisão no momento certo.

Deixe uma resposta