Priorize a Continuidade e evite a Reversibilidade

Imagine uma pessoa acima do peso que largou o sedentarismo, passou a caminhar e incluiu alguns minutos de trote nesta caminhada. Em seguida, os tempos de corrida aumentaram e os de caminhada diminuíram, ao mesmo tempo que ela emagrecia. A partir daí, os paces de corrida dela diminuíam e a performance desta pessoa melhorava a cada dia, chegando no ápice da forma física. Entretanto, esta pessoa esteve 10 dias em férias, mudou toda a rotina, não correu em nenhum dia e exagerou na alimentação neste período. Quando voltou a correr, teve dificuldades na realização do treino e parecia que tinha retornado ao condicionamento físico parecido àquele que tinha quando era sedentário.

Esta cena já aconteceu com você? Pois bem, este acontecimento é explicado através dos princípios biológicos da Continuidade e da Reversibilidade, que serão falados neste texto através da definição, quando cada um é importante na periodização e quanto se perde ao ficar 15 dias sem correr.

O conceito que define os princípios de Continuidade e Reversibilidade é muito simples: permanece na prática de exercícios físicos (Continuidade), através de gastos de energia, você terá ganhos no condicionamento físico. Caso tenha que interrompê-los (Reversibilidade), o praticante perde tudo aquilo que tanto se esforçou para conseguir. É possível fazer uma comparação da prática/interrupção de exercícios físicos com a arrumação de um quarto, onde a pessoa faz um tremendo esforço para deixar o local limpo e bonito (o mesmo que um corredor se esforça para treinar para uma determinada prova no princípio da Continuidade), mas quando uma caixa de brinquedo é espalhada pelo chão deste quarto (o princípio da Reversibilidade), ele volta a ficar desarrumado.

Interpretando as definições acima, a primeira impressão mostra que a Continuidade é a “mocinha” da história e que a Reversibilidade é a “vilã”. Na verdade, não é bem assim que funciona. Para entender melhor a importância de cada um destes princípios, as etapas de um planejamento de treinos (conhecido tecnicamente como Periodização) serão expostas e apontadas quando os princípios de Continuidade e de reversibilidade devem ser priorizados.

No Período Preparatório há um crescimento das cargas de treino, tendo estas cargas de treino mantidas no Período de Competição. Nestas fases, é de extrema importância que a Continuidade nos treinos prevaleça frente à Reversibilidade, para que o corredor adquira a melhor forma possível e tenha um excelente rendimento na prova-alvo. Caso ele deixe de treinar por mais de uma semana, por exemplo, certamente muito daquilo que ele conseguiu através dos treinos será perdido e terá que se esforçar para readquirir o condicionamento perdido.

A Reversibilidade só pode ter um período maior que a Continuidade no Período de Transição que, na prática, é o mesmo que o corredor tirar férias. Como o objetivo desta fase é descansar física e mentalmente, o atleta “pode ter este direito” de não treinar alguns dias ou escolher outra atividade para substituir a corrida. Se ele, por exemplo, pedalar ao invés de correr, a aplicação da Reversibilidade se deve apenas aos treinos de corrida e não ao condicionamento físico geral da pessoa. Para evitar o aparecimento de lesões, ter um período que a corrida seja alterada por outra atividade física ou até mesmo interrompida é muito importante, além de deixa-lo mais motivado para a próxima Periodização de treinos.

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Foram vistas a definição dos princípios de Continuidade e de Reversibilidade e quando estes devem ser priorizados, mas quanto tempo sem treinar faz a pessoa perder o que adquiriu nos treinos e provas? Esta questão varia de atleta para atleta, mas, em até 15 dias sem treino (um período ideal para durar uma fase de Transição), a pessoa chega a perder entre 20 e 30% da condição física adquirida, que logo será readquirido. Acima destes 15 dias, quanto maior o tempo inativo da pessoa, mais tarde ele readquirá a condição física ideal.

Apesar de ser importante para a recuperação física e psicológica do atleta, o corredor deve tomar muito cuidado para que o período de Reversibilidade não seja aumentado e ultrapasse estes 15 dias citados no parágrafo anterior. Com o passar do tempo sem Corrida e fortalecimento muscular, o peso corporal também aumentará e, com ele, a dificuldade nas atividades do dia-a-dia e aparecimento de dores musculares no corpo, fazendo que o atleta volte a ser uma pessoa sedentária. Para isso, a Continuidade nos treinos deve ser prioridade nas 50 semanas do ano, deixando o corredor apto a atingir os objetivos estabelecidos.

Bons treinos, dando muita continuidade a eles.. 

Marco Costa

Marco Costa

Corredor desde 1998. Graduado em Educação Física (UniFMU-2003); Pós-Graduado em Treinamento Desportivo (UniFMU-2005), Fisiologia do Exercício (UNIFESP/EPM-2006) e Administração e Marketing Esportivo (Universidade Gama Filho-2013). Treinador de Corridas de Rua, Personal Trainer e Professor Escolar para Ensino Fundamental e autor do livro "DESAFIO DO DUNGA: Superações Física, Mental e Pessoal em duas Edições", Editora 4Letras, 2016.

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