Angélica de Almeida – a maratonista olimpica que lutou contra todos os prognosticos

A guerreira que foi criada em uma creche, depois foi transferida para a FEBEM e de lá saiu para entrar na historia do atletismo brasileiro.

Sangue de  Corredor teve a satisfação de conhecer a Angélica de Almeida no Parque do Trote, em um dos treinos de domingo, coordenado pelo Mestre Heroi Fung.

Em um bate papo de 40 minutos ela nos falou de sua vida, de seus desafios, de suas dificuldades e principalmente de sua felicidade em ser uma corredora.

Tomem para si esta leitura que vai lhes mostrar que as dificuldades podem nos mostrar um novo caminho, depende somente de cada um de nós.

Esta é a história desta corredora olimpica, que nos compartilha sua vida sofrida, seus desafios e superações.

Angélica de Almeida é uma mulher nascida em Itapeva em 25 de março 1965, fui criada na Creche Catarina Labouré, um colégio de freiras, desde quando nasci até os doze anos. Aos 12 anos, já não podia ficar aos cuidados das religiosas, foi transferida para uma unidade de Febem, na Casa Verde, onde me descobri atleta. Gosto de correr, de me divertir, de ouvir música, de estar com amigos.

Quando fui transferida para a Febem, comecei a praticar esportes. Fui para lá com 12 anos e havia atividade física, jogos. Eu me interessei e me inscrevi. Num dos campeonatos de atletismo, eu me destaquei, e o professor Sérgio Luís Zamelato se interessou, perguntou se eu não gostaria de praticar corrida, assim, de 50 metros, cem metros. Aí eu comecei a competir nos campeonatos da Febem e comecei a me destacar nos 50 metros, que era infantil, mirim, em salto em distância, 400 metros e aí o Coordenador-Geral dos professores de lá, Dietrich Gerner, que foi técnico do Ademar Ferreira da Silva, disse a ele que eu tinha habilidade para correr e tal e aí ele disse: ‘Ah, então, vamos levá-la ao Centro Olímpico, não é?

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Isso foi em torno de 79. Aí eu conheci o Carlão, o Carlos Gomes Ventura, que treinava o pessoal lá. Mas só que o objetivo lá era de eu correr os 400 metros. Imagina. Aí eu comecei a correr os 400, os 800 metros, os 1.500 metros.

Isso foi já no infantil para o juvenil e comecei a me destacar nas provas de meio fundo da Seleção Paulista, do Campeonato Paulista e algumas provas que tinha a Prova da Penha, do Clube Espéria, lá em São Miguel, da Nitroquímica.

Como era infantil e juvenil fui gradualmente subindo para 3 mil e 5 mil metros em pista ainda. Ao mesmo tempo eu fazia corrida de rua de 6k e 10k e no decorrer participei da 1ª Maratona de São Paulo, com largada em frente ao Shopping Ibirapuera, as 17:00, e fui a primeira colocada, aos 16 anos com o tempo de 3h17. Fui nessa maratona de paraquedas. A galera ia correr e eu os acompanhava nos treinos e eu só havia treinado 25 km. A pretensão era correr 20k ou 25k, mas durante a prova, quando estava no quilometro 25 o pessoal me informou que eu estava em primeiro lugar e a coisa foi me empolgando e continuei. Como prêmio ganhei a passagem para Nova York, 1982 na data do aniversário de São Paulo.

Ir para Nova York foi uma loucura. Foi a primeira vez que saí do país, que eu andava de avião. Para mim, era tudo novidade. Eu treinei, assim, não específico para maratona e sem compromisso. Como eu tinha ganho a passagem, o Carlão falou: ‘Vai sem compromisso, para ver como é‘. E era tudo novidade. Na largada, eu não sabia de que lado ficar, porque são duas pistas, não é… E aí tinha aquelas placas para o pessoal se encaixar, eu fui para lá, fiquei na placa das cinco horas. Aí deu uma largada lá, um tiro de canhão, e o pessoal começou a se mexer, assim, mas quase andar, não é? Eu falei: ‘Meu Deus do Céu!‘ Comecei a ficar meio desesperada e comecei a fazer ziguezague para sair do pessoal não é? Mas aí eu terminei a prova, assim, foi quase um passeio e baixei mais meu tempo, fiz em 2h59 e fui a segunda na categoria juvenil.

Foi a partir daí que tudo começou para mim. Depois dessa maratona. Aí o São Paulo se interessou em patrocinar. Foi também quando eu saí da Febem, na primeira maratona em Nova York, eu ainda estava lá, mas depois a doutora Maria (Maria Marli Kecorius), que trabalhava no Centro Olímpico, ela era também médica da seleção feminina de basquete, me convidou para morar com ela. Fiquei acho que uns quatro anos. Foi aí que eu comecei a me manter com o esporte, só treinar e competir.

No ano seguinte, eu voltei a correr Nova York. Foi em 83, e eu fui a primeira colocada, na categoria Júnior, e bati o recorde da prova da Cidade de Nova York, porque eu consegui fazer em 2h49, competindo pelo São Paulo, que pagou a viagem. Continuei a fazer provas de fundo, em pista, e a São Silvestre. Minha primeira São Silvestre, eu fui a 25ª colocada. depois, melhorei: fui sétima, quarta, quinta… Minha melhor colocação foi em 87, quando eu fui a vice-campeã, e a Marta Tenório ganhou. . Essa prova era a noite e junto com o masculino. Eu só fui saber que estava em terceira colocada quando estava subindo a Consolação quando passei a Venezuelana, tentei chegar mais perto da Marta Tenório, mas não consegui. Apesar de ser uma corrida curta, 15k, você tem que ter uma estratégia. Essa corrida é de tática e a subida da Brigadeiro o bicho pega, você tem que dosar seu ritmo durante toda a prova.

Continuei competindo e treinando muito mas o ano de 1988 foi um ano perturbado. Eu saí do São Paulo, quando passei a treinar com o Marcão (Marco Antonio de Oliveira). Já não tinha patrocínio, eu que estava bancando com o que eu tinha guardado, fui fazer a Maratona do Rio, porque, como não tinha patrocínio, nada, não tinha como ir para fora. O Marcão falou: “É a única chance que você tem, vai lá e arrisca”. E ainda bem que deu tudo certo, porque eu estava bem, tinha treinado muito…

Estava vetada pela Confederação, tinha de fazer o índice para a Olimpíada, não é? Eu ia tentar em Munique, mas não deu certo. Dois meses e meio só treinando, e não consegui ir. Então sobrou apenas a Maratona do Rio de Janeiro, no calor e tudo. E eu consegui fazer 2h37, consegui o índice, porque a Janete Mayal tinha feito 2h42 em Munique, até então ela é que tinha a vaga. Mas foi um ano muito bom para mim. Antes da Olimpíada, teve o Primeiro GP do Brasil, que foi em Curitiba. Eu fiz os 5.000, fui a segunda bati o recorde brasileiro e sul-americano em 16m34s. E aí duas semanas depois eu fiz os 10 mil, no Brasileiro adulto, que eu também bati o recorde sul-americano e brasileiro.

Tive muitos problemas, muitos preconceitos, antigamente, quando eu comecei, na década de 80 e até acho que 91, 92 acho que tinha. Hoje em dia, não, mas na época acho que sim, inclusive. Aqui no Brasil, imagine, a mulherada correndo na rua, eles gritavam: “Vai lavar louça! Vai pilotar fogão!” Nas provas, também, agora está melhor, mas assim, você passa um corredor e ele querer vir atrás, entendeu? Não admitir que você passe ele. Houveram provas em que na largada, assim, o pessoal masculino tentava empurrar para cair, não raro sofria empurrões e cotoveladas de homens que não admitiam sofrer a competição feminina… Mas, agora está bem melhor, nossa, a corrida de rua cresceu muito…

Apesar das dificuldades que todos podem imaginar, recebi apoio, incentivo, cresci na vida esportiva: fui a primeira brasileira a participar em um Mundial de maratonas (Roma, 1987). E também participei da Olimpíada de Seul, no ano seguinte.

A minha corrida mais difícil foi a Maratona de são Paulo, com saída no Ibirapuera. Cometi um erro de estratégia, a dois km a Janete me passou e mesmo assim fui a segunda colocada.

Os pódios de corrida de rua já perdi a conta.

Todo corredor tem que ter experiência em provas curtas para pegar velocidade.

Esse é o meu mundo

Hoje tenho um Grupo de Corrida! Gostaria de estar ajudando as pessoas na qualidade de vida. O esporte é fundamental quando colocamos o esporte em nossas vidas. Gostaria de estar ajudando as pessoas através do esporte. A corrida de pista foi uma base para mim, foi uma experiência fundamental. Foi ela que me permitiu ter velocidade. E a corrida de rua foi aos poucos. Fui para mundiais e maratonas.

O esporte é qualidade de vida, não importa qual esporte você goste de fazer, ter sempre um objetivo e correr a trás de seus sonhos. Só o fato de você está cruzando a linha de chegada já é um grande feito.

Com esse cartel de corridas(139 corridas e 39 primeiro lugar) se a Angélica fosse americana ou europeia, estaria vivendo muito bem de seu passado como modelo para as gerações!

Miserável é a Nação que não dá valor a seus verdadeiros heróis, preferindo cultuar heróis com pés de barro!!

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