Quando nos tornamos corredores, grandes mudanças acontecem

Quando nos tornamos corredores, grandes mudanças acontecem. E, acreditem em mim, as mais importantes estão longe de ser as que acontecem no nosso corpo. É claro que elas ocorrem, são significativas, melhoram nossa saúde, aumentam nossa longevidade, liberam endorfinas, blá-blá-blá, etcetera e tal. Isso a gente ouve de todos os treinadores, lê em todas as revistas, acompanha em todos os sites e matérias de TV.

Essa é a parte mais óbvia, lógica e certamente aquela que nos levou, racionalmente, a escolher a corrida como atividade e paixão. Só que a corrida traz alguns efeitos colaterais que não ouvimos falar por aí. São coisas pouco comentadas, porém extremamente significativas e que nenhum corredor honesto deixará de confirmar, se perguntarmos a ele. Você não lerá sobre isso em lugar algum — mas agora vai ler aqui.

O fato é o seguinte:

ninguém que começa a correr voltará um dia a ser normal.

Aceite — simplesmente aceite — que você vai ficar meio destrambelhado, diferentão, e que não há escapatória para isso. Mas não se preocupe, pois os sintomas não tão são sérios e jamais serão capazes de atrapalhar sua vida pessoal ou sua carreira.

Ao menos não muito.

Em seguida darei alguns exemplos de como a cabeça do corredor trabalha de um jeito bizarro, de forma que os que correm há mais tempo se identificarão imediatamente, enquanto os novatos acabarão entendendo que só serão corredores de verdade quando começarem a agir e pensar desse jeito louco.

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Primeiro exemplo:

corredores têm mania de alongamento. Há sempre algo doendo neles e, mesmo quando não há dor alguma, eles dão um jeito de alongar os braços por trás da cabeça, de girar a ponta dos pés no chão para soltar os tornozelos ou até mesmo fazer pequenos agachamentos. Tudo isso, é claro, independentemente do lugar em que estejam. Os alongamentos podem perfeitamente ocorrer durante uma reunião de trabalho, no cinema, no museu, no consultório ou até depois de transar.

Não se assustem. É coisa “normal” de corredor.

Quando pessoas normais chegam a uma nova cidade, olham pela janela do táxi em busca de pontos turísticos ou de informações sobre o jeito das pessoas que lá vivem. Mas não os corredores. Os corredores observam atentos a paisagem externa em busca de um bom parque para correr e procuram calcular (mentalmente ou com a ajuda de um equipamento tipo Garmin ou Waze) possíveis distâncias que poderiam ajudar em seu treino. Se precisam rodar 10 km naquele dia e percebem que a distância do hotel até o aeroporto fica ao redor de 5 km, é bem provável que tentem fazer mais tarde o percurso hotel-aeroporto-hotel.

Se chegam a um parque, em vez de fazer perguntas sobre o horário de funcionamento, as atrações e opções gastronômicas, só querem saber quantos quilômetros percorrerão se derem uma volta no mesmo.

As pessoas jamais sabem e reagem com espanto a perguntas assim — e aí a saída é perguntar a outro corredor. E esse louco sempre saberá a resposta, com precisão de metros. Nem preciso dizer que corredor dá uma importância anormal à topografia e à umidade do ar. Se uma cidade é “planinha” e com baixa umidade, será sempre uma cidade incrível. Se tem muitas ladeiras ou é muito úmida, pode ser Nápoles, San Francisco ou o Monte Saint-Michel, um autêntico corredor sempre a considerará uma porcaria de lugar.

Marcos Catano
Ativo.com

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