Emerson Iser Bem, o homem que bateu o mito Paul Tergat

Emerson Iser Bem, o homem que bateu o mito Paul Tergat naquela arrancada fenomenal na Av Brigadeiro Luiz Antonio e Av Paulista e correu para vencer a  73ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre.

Esse disputa ficou para a historia do atletismo brasileiro.

Quando todos esperavam que o queniano Paul Tergat conseguiria sua terceira vitória na Corrida de São Silvestre, em 1997, um brasileiro surpreendeu!

Apesar de já ter resultados expressivos que comprovassem seu nível técnico, a vitória de Emerson Iser Bem na São Silvestre de 1997 sobre o queniano Paul Tergat, que na época tentava o tricampeonato da prova, foi surpresa, inclusive para ele.

Iser Bem praticou esporte desde menino, jogando futebol, handebol, andando de bicicleta e dando suas corridinhas. Em 1987, aos 14 anos, um acidente acabou mudando sua vida, quando trabalhava como entregador de leite e usava geralmente a bicicleta como meio de locomoção. Em dias de chuva, a dificuldade para se locomover sobre duas rodas em caminhos de terra fazia com que o menino trocasse o pedal pelo cavalo.

Um dia, após terminar o serviço, Iser Bem foi desencilhar o cavalo e seu irmão cutucou o ouvido do animal com uma mangueira, fazendo o cavalo dar um salto para trás e a corda acabou cortando seu polegar esquerdo ao meio. Apesar do acidente, nesse mesmo ano ele correu, pela primeira vez, a corrida anual em Santo Antonio, que largava na praça da cidade, seguia para San Antonio, na Argentina, e voltava para o lado brasileiro. “Eram 7 km. Em 1985, quando levava leite para a cidade, tinha visto essa corrida e fiquei encantado. Durante todo o ano treinei pensando nela.”

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Emerson lembra que correu cerca de 2 km junto com os líderes, mas não suportou o ritmo. Ficou todo dolorido. Foi aí que conversou com o professor da sua escola, Luis Bernardi, e passou a treinar sob sua orientação. Depois de um ano inteiro de preparação, teve nova oportunidade na mesma corrida, mas dessa vez participando de uma distância apropriada para sua idade, cerca de 2,6 km. Emerson venceu garotos que figuravam como os melhores da categoria do Paraná. A partir de então foram apenas vitórias.

A corrida que marcou definitivamente seu início de carreira no atletismo foi disputada em Foz do Iguaçu, na 2ª edição dos Jogos da Juventude do Paraná. Apenas no local soube que era uma prova em pista. “Nunca havia pisado numa”, lembra Iser Bem. Com base na informação que tinha da prova de 800 m, que seria disputada como eliminatória em um dia e final no dia seguinte, o jovem foi para a disputa dos 5.000 m achando que era também uma eliminatória. Venceu a prova, virou para o 2º colocado e perguntou: “Que horas é a final amanhã?” A prova vencida por ele já era a final.

Essa vitória acabou definindo muita coisa nos caminhos trilhados depois pelo atleta, que em 1989, ainda com 15 anos, foi para Londrina para treinar com o professor Eugênio Zamineli. Surgiu então a oportunidade de participar de provas pelo Brasil afora.

A partir daí as coisas foram acontecendo naturalmente e não teve mais volta. “Saí da casa dos meus pais cedo, indo para Londrina, onde pensava teria mais opções de estudo. Mas, na prática, os bons resultados na corrida acabavam dificultando a regularidade na escola.

 Do Paraná para São Paulo e depois para todo Brasil

Em 1990, foi campeão brasileiro juvenil dos 5.000 m, resultado que chamou atenção do dirigente Sérgio Nogueira, que estava na época montando a equipe Funilense (atual BM&F), em Cosmópolis, perto de Campinas, que seria a principal do atletismo brasileiro. Aos 17 anos, Iser chegou a Cosmópolis para treinar com o professor Asdrúbal Ferreira Batista, que em 1992 veio a falecer. “Foi um ano de contrastes. Perdi o professor Asdrúbal, por quem sempre tive muito carinho, mas consegui fazer alguns bons resultados”, conta o atleta, que chegou a ser orientado por Adauto Domigues (treinador de Marilson Gomes), e que continuou o trabalho do antigo técnico no Sesi, mas, por dificuldades de comunicação, acabou indo treinar com Ricardo D’Angelo, com quem permaneceu até o fim da carreira.

“Fiz uma boa apresentação no Mundial treinando com o Adauto, mas, no ano seguinte, em 1993, eu tinha muita dificuldade na comunicação, pois ele morava em Santo André, e eu em Cosmópolis. Naquela época não havia internet nem celular. No início de 1993 conversei com o Ricardo, que já morava em Campinas e orientava o Vanderlei Cordeiro, e fui treinar com ele; 95% dos meus melhores resultados consegui com a ajuda do D´Angelo.”

 Um recorde a ser batido

Antes de ficar conhecido para o Brasil, após a vitória na São Silvestre diante do mito queniano, Émerson Iser Bem já tinha grandes resultados no seu currículo. O atleta carrega até hoje um recorde juvenil, que já dura 25 anos (a marca é de 1992). “Sou recordista brasileiro de 5.000 m da categoria juvenil, com 13:59, em Seul. Antes de 1992 havia uma disputa deste recorde, da qual eu apenas ficava ouvindo as argumentações. O Clodoaldo Lopes do Carmo havia corrido 14:14 e o Valdenor Pereira dos Santos tinha marcado 14:12. Só que o Valdenor não estava corretamente inscrito. Oficialmente o recorde era do Clodoaldo. Eu só escutava os dois ‘debatendo’ a respeito. Em 1991, fiz 14:13. Oficialmente já tinha o recorde, mas Valdenor continuava com a melhor marca”, lembra Iser Bem, que em 1992 não deixou mais dúvidas de quem era esse recorde. Correu quatro vezes abaixo de 14:10, sendo uma delas na final do Campeonato Mundial de Juvenis, em Seul, Coreia do Sul, onde foi 8º colocado numa prova em que teve como campeão um jovem etíope chamado Haile Gebrselassie (futuro recordista mundial de maratona, entre outros títulos).

Um ano antes da vitória na São Silvestre, Émerson conseguiu um excelente resultado numa prova de cross-country, em Amedoeiras, Portugal, sagrando-se como o primeiro brasileiro a vencer uma etapa de cross do circuito da IAAF, em 1996. “A partir de 1995, participei de muitas provas de cross na Europa pela Funilense. A preparação através do cross é muito usada na Europa e na minha época buscávamos sempre melhorar as marcas pessoais através de ciclos de treinamento voltados exclusivamente para esta finalidade. Venci em 1996 nas Amendoeiras. Foi uma grande surpresa para todos, pois o 2º colocado foi um queniano que liderava o ranking mundial, James Kariuki”, conta Émerson, lembrando ainda que com o dinheiro que ganhou com a vitória em Portugal conseguiu finalizar as obras da casa de seus pais, no Paraná.

 Lembranças de 1997, meu ano

Apesar da grande conquista em Portugal, o último dia de 1997 marcaria para sempre a carreira deste atleta. Depois de uma arrancada no final da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, o brasileiro derrotou nada menos do que Paul Tergat, impedindo o tricampeonato do queniano na Corrida Internacional de São Silvestre.

Apesar de ninguém negar seu talento, a vitória diante de Tergat causou surpresa, inclusive para ele. “Não imaginava vencer”, diz o atleta, que lembra ter sido a prova muito tranquila até a passagem dos 5 km (cerca de 14:20) e apenas a partir do km 7 deu uma acelerada. “Estávamos num grupo de seis atletas. Eu, o Vanderlei Cordeiro, o equatoriano Silvio Guerra, os sul-africanos Hendrick Ramaala e John Morapedy e o Tergat. Considerava que precisava ganhar apenas de um atleta daquele grupo para ficar entre os cinco no pódio.” Mas o grupo não se desfez e foi assim até a subida da Brigadeiro (km 12).

Tergat acelerou e abriu distância, deixando Iser Bem, Vanderlei e Ramaala um pouco para trás. O sul-africano deu um tiro para tentar abrir dos dois brasileiros. “O Vanderlei ficou e eu fui junto. Já tinha vencido o Ramaala em provas de cross e sabia que era possível. Mas ele deu outra arrancada ainda mais forte. Eu acelerei junto e, quando ele soltou, resolvi manter.” Naquele momento, o brasileiro já ocupava a 2ª posição. E, por incrível que pareça, seu objetivo não era buscar Tergat, mas sim escapar de Ramaala e principalmente de Vanderlei, que era forte em subidas, uma vez que a prova dava um carro zero para o melhor atleta nacional.

“Olhei para trás algumas vezes buscando o Vanderlei. Com essa preocupação de fugir dos que estavam atrás, acabei me aproximando do Tergat”, conta Iser Bem, que encostou no queniano e ali travou uma batalha pela primeira colocação. Mesmo não acreditando que poderia vencê-lo, o brasileiro entrou forte na Avenida Paulista. “Acelerei com todas as minhas forças e ele não respondeu ao meu ataque. Ainda assim eu imaginava que a qualquer momento ele poderia me ultrapassar. Só acreditei mesmo que tinha vencido quando cruzei a linha de chegada.”

A entrada na Avenida Paulista ainda permanece na sua memória como um momento mágico, como a primeira imagem que vem à cabeça quando lembra dessa prova. Se 1997 foi um ano de glória, o ano seguinte, no entanto, foi marcado por lesões. Mesmo assim, Iser Bem ainda foi 6º na SS daquele ano, sendo o primeiro brasileiro na prova. Em 1999, conseguiu o 3º lugar na Meia de Tóquio, com 1:01:14.

A hora de parar 

Depois de sofrer algum tempo com uma tendinite nos dois calcâneos, Iser Bem tomou a iniciativa de parar em 2007. “Em 2006, eu ainda cheguei a correr os 5.000 m para 14:20, mas a corrida tinha deixado de ser um prazer e se tornado algo extremamente doloroso”, diz ele, que nesse ano havia entrado para a Faculdade de Educação Física e logo em seguida passou a desenvolver um trabalho no Centro Esportivo da cidade de Pindamonhangaba, o que acabou o afastando definitivamente das provas como profissional.

Hoje, Iser Bem, que mora em Tremembé, é casado e pai de quatro filhos, atua como coordenador de atletismo e treinador de meio fundo e fundo em Pindamonhangaba, além de coordenar um projeto, também nessa cidade do Vale do Paraíba, na área de Desenvolvimento Social. Iser Bem tem ainda uma assessoria esportiva, destinada a amadores, e comanda o programa Atletismo na Escola em Pinda, destinado a crianças.

Quando perguntado que tipo de experiência ele consegue passar para a garotada que começa hoje, ele lembra que não há exemplo mais fácil do que a São Silvestre. “Ao final da prova eu tinha ao meu lado um atleta que havia acabado de correr os 10.000 m na casa dos 26 minutos e uma meia em 58. Ainda assim, no final da SS, minha atitude foi de fazer meu melhor, pois, como sempre digo a eles,

corra como se fosse sua última competição, pois um dia será mesmo

Fazendo questão de ressaltar “última” não no sentido próprio da palavra, mas sim como oportunidade.

“Será que na próxima edição desta prova estaremos aqui com as mesmas condições físicas que estamos agora? E nossos adversários serão os mesmos?”, indaga o paranaense, que diz que sempre teve esse sentimento muito forte com ele. “Eu sabia que aquilo passaria e que, quando assim fosse, não adiantaria lamentar. Nunca tive medo de correr para meu máximo. Agora, vivo em paz com meu passado. Claro que penso que algumas marcas poderiam ter alguns segundos a menos. Mas me lembro que fiz o que pude quando estava competindo. Aliás, fiz o meu melhor. E, para alguém que nem tanta genética de fundista tinha, até que foi razoável.”

Nunca tive medo de correr para meu máximo. Agora, vivo em paz com meu passado

POR FERNANDA PARADIZO (fernanda@contrarelogio.com.br)

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