Carlos Dias – o filho de um vigia e uma faxineira que se tornou Super-Humano

Carlos Dias, o SUPER-HUMANO, menino simples, filho de um vigia e uma faxineira que teve a ousadia de reinventar sua propria historia. O menino que um dia cresceu e aceitou de frente todos os desafios que a vida lhe proporcionou e nunca negou fogo.

Sangue de Corredor convidou o mito Carlos Dias, o unico latinoamericano classificado como um Super-Humano, entre 6 milhões de corredores, por nada menos que o mestre das historias em quadrinhos, Stan Lee, criador do Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Loki, Capitão Marvel e tantos outros para um bate papo no “Arte em Pétalas Café”, um verdadeiro pedacinho de Paris, na Rua Tutóia, em São Paulo.

Nessa entrevista buscamos desvendar não o mito, mas o homem, o ser humano simples, carismatico, honesto em cada gesto ou palavra, sincero e acima de tudo, um homem intenso.

Sangue de Corredor: Onde e quando você nasceu e como foi sua infância?

Carlos Dias: Nasci em São Bernardo do Campo em 1973, no dia 12 de janeiro. Tive uma infância alegre, tive a oportunidade de experimentar todas as brincadeiras de crianças. Apesar das dificuldades, tive momentos muitos felizes. Vivi minha infância de forma verdadeira, mas ela começou difícil.

Se alguém me perguntar qual foi a maior inspiração que tive em minha vida, definitivamente foi minha mãe

Sangue de Corredor: Qual a melhor lembrança que você trás da sua infância?

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Carlos Dias: A melhor lembrança que tenho era quando chegava os domingos e via todo mundo reunido: mãe, meus irmãos, tios, primos, em torno de uma mesa e mamãe fazendo o almoço com o maior prazer do mundo, contando histórias de como era a vida dela na Bahia, de quando morava em uma fazenda, as brincadeiras, as músicas que ela cantava na beira do rio, lavando roupas, com toda simplicidade dela e o prazer que ela tinha de reunir todos em volta da mesa, da comida que estava fazendo. Então, esses momentos, esse olhar para trás e rever na memoria esses domingos me trazem uma imagem muito forte, o cheiro, o sorriso dela, os abraços, a alegria que ela sentia em reunir todo mundo. Eram momentos singular de pura felicidade, apesar de todas as dificuldades que passávamos. Ali aprendi a sentir o poder que a família tem de fortalecer uns aos outros e criar conexões.

Ao redor da mesa, aos domingos aprendi o poder que a família tem de fortalecer uns aos outros e criar conexões.

Sangue de Corredor: Quando você era jovem, sonhava ser o que?

Carlos Dias: Como todo garoto pobre que nasce nesse Brasil de meu Deus, sonhava em ser jogador de futebol e, São Bernardo do Campo era cheia de campos de futebol, inclusive a uma quadra da minha casa tinha um. Sonhava ser jogador de futebol, mas no fundo de minha alma tinha vontade de fazer diferente, no esporte, mas não sabia o quê!

Experimentei alguns esportes e o futebol foi o primeiro deles, depois veio o vôlei, depois o ciclismo, depois o paraquedismo e depois de tudo isso veio a corrida. Acho que consegui fazer diferente, não sendo o mais rápido, o recordista, o cara que tira o primeiro lugar, mas um cara que faz a conexão da corrida com outras pessoas, levar uma mensagem de que qualquer um pode transforma seu cenário. Trazer o legado que aprendi com minha mãe. Passar para as pessoas o que aprendi é justamente levar o conhecimento e compartilhar e não me apropriar deste conhecimento ou de um titulo, mas criar uma ferramenta que permita criar conexões com outras pessoas, sejam daqui ou de qualquer outro pais. Uma delas foi abraçar a causa de combate ao câncer infantil. La atrás eu sonhei em fazer diferente e acho que estou conseguindo.

Sangue de Corredor: Como era sua família? Tem alguém que te marcou de uma forma ou de outra?

Carlos Dias: Perdi meu pai quando tinha 2 anos de idade. Meu pai era vigia de uma empresa e minha mãe era faxineira da mesma empresa. Em 1975, exatamente a 05 de fevereiro, teve um assalto na empresa. Meu pai estava trabalhando quando os assaltantes chegaram atirando, ele foi atingido e morreu na hora. Essa avalanche que atingiu nossa família fez nascer um personagem muito importante na minha vida: minha mãe. Ela demonstrou ser um ser humano muito forte, por isso que consegui vencer na vida. Ela soube se reinventar, souber olhar lá na frente, mesmo com três filhos pequenos. Imagine a pessoa, faxineira, que tem o menor salário na empresa, não saber ler nem escrever… Se alguém me perguntar qual foi a maior inspiração que tive em minha vida, definitivamente foi minha mãe. Ela não aceitou aquele momento difícil, uma vida fosse de escassez então ela sonhou, lutou, trabalhou firme para ver-me e as minhas duas irmãs na universidade. Fez com que a gente chegasse lá, cumpriu sua missão.

Minha infância começou com essa avalanche, mas minha mãe mostrou a vida como ela é. Teve a coragem de encarar a vida e nos mostrar que podemos mudar o cenário com nossas atitudes e uma das atitudes mais importante, apesar de ser uma mulher analfabeta, era a busca do conhecimento porque nenhum bandido poderia roubar o seu conhecimento. Ela sempre falava que o nosso melhor capital era o conhecimento e que esse conhecimento deveria ser repassado para as pessoas que estivessem a nossa volta.

Sangue de Corredor: O que você mudaria se pudesse voltar no tempo?

Carlos Dias: (emoção) Traria meu pai junto a essa jornada, apesar de saber que ele está sempre ao meu lado. O restante deixaria exatamente como está e como foi, pois, o carinho e a força que minha mãe nos deu, só faltou ele. Só mudaria isso. Gostaria que ele estivesse junto para deixar o fardo mais leve para minha mãe.

Sangue de Corredor: Como foi sua juventude? Como você interagia com os jovens da sua idade?

Carlos Dias: Tive a alegria de conquistar amigos verdadeiros que me acompanham ate hoje. Perdi outros amigos, mas os que conquistei na minha infância e juventude, são fieis e participativos até hoje. Era e é uma relação de irmão, cada um torce pelo outro e quando a gente se encontra parece que voltamos no tempo. Esse é o meu melhor patrimônio.

Sangue de Corredor: Você se lembra da sua primeira namorada? Como foi isso?

Carlos Dias: (risos) Primeira namorada, foi no ambiente de escola, em São Bernardo. Todo relacionamento é uma oportunidade de conhecimento e todo relacionamento escancara quem você exatamente é. Todos os meus relacionamentos foram muito intensos e por isso agradeço a todas as namoradas que tive.

Sangue de Corredor: Tem algum sonho de infância e juventude que você já realizou? Tem algum que você ainda não conseguiu realizar, por que?

Carlos Dias: Nunca tive um sonho especifico, aprendi com minha mãe: nunca deixa nada pela metade. Então, em tudo que estive, consegui concluir, realizar. Meu maior sonho foi fazer diferente no esporte e estou realizando, porque se renovo todo dia. Sonhei fazer uma faculdade, realizei. Sonhei dar tranquilidade para minha mãe, realizei. Apesar de ter tido oportunidade de seguir caminhos que poderiam dar mais trabalho para minha mãe, não segui. Aprendi com ela a colocar atitude na frente e transformar escassez em abundância.

Sangue de Corredor: Hoje, com o que você sonha?(risos)

Carlos Dias: Hoje tenho um sonho de criar uma fundação, um instituto que possibilite convidar os atletas a estarem comigo usando a corrida como ferramenta para ajudar. O objetivo seria usar a força humana e nossos conhecimentos e compartilhar com quem precisa, por exemplo, atletas que tenham alguma deficiência física e que gostariam de participar de uma corrida, de uma maratona, de uma São Silvestre e não o fazem porque não tem atletas para guia-los. Já vi algumas situações que o deficiente visual, pagou a inscrição, reservou hotel, determinada pessoa se predispôs a guia-lo e no dia da prova não aparece e nem deu satisfação. Gostaria de criar um canal que pudéssemos nos aglutinar em volta desta necessidade.

Quando comecei a correr a gente convidada alguns amigos e saiamos correndo por ai, não tinha assessorias, não tinha rede social. Hoje as pessoas ficam mais curtindo as redes sociais do que vivendo a realidade, tenho um sonho de fazer com que a corrida seja mais inclusiva.

Sangue de Corredor: Alguma vez você chorou? Quando e porquê?

Quando a vida não é pequena.

Carlos Dias: (risos) Sou um grande chorão, não tem prova, não tem distância que não me arrancasse uma lagrima, sou emoção pura. Hoje tenho 122 mil quilômetros de corridas, em 24 anos de profissão, mas desde o primeiro quilometro que consegui fazer foram extremamente emocionantes. Todos nós temos um grande desafio, não importa se a pessoa está andando 1 quilometro no Parque ou fazendo uma ultramaratona de 250 quilometros no deserto, ela está enfrentando um desafio interno. Choro mesmo, choro de alegria, choro de emoção por estar avançando um pouco a cada prova. Procuro me manter dentro deste sonho, pois cada vez a cobrança é maior, as pessoas cobram cada vez mais, tentam te limitar, te tachar disso ou daquilo e eu simplesmente sigo fazendo porque amo correr, amo o que faço. Sou esse cara emotivo, visceral e vou continuar sendo do jeitinho que o Cara lá de cima me fez. Sou pura emoção! (um largo sorriso)

Meu filho, meu tesouro.

Sangue de Corredor: Você tem filhos, como é o Carlos Dias, pai?

Carlos Dias: Sou um pai babão. Sou um cara conectado com ele. Tem 10 anos de idade. Quando ele nasceu, em 02 de janeiro de 2007 eu ajudei a fazer o parto. Foi ali, naquele momento, segurando ele, ali, todo ensanguentado, frágil, antes de cortar o cordão umbilical, olhei para o médico e disse que iria cruzar o Brasil, foi nesse momento que tomei a decisão de cruzar o Brasil, fazer essa corrida, do Oiapoque ao Chuí. Esse foi o momento mais importante da minha vida, nesses meus 44 anos.

Sangue de Corredor: Qual seu bichinho de estimação?

Carlos Dias: Eu tive um cachorro que foi praticamente um irmão. Eu e minhas irmãs ganhamos quando eu tinha 4 anos de idade e ele viveu 16 anos. Ele levava a gente na escola, buscava a gente na escola e por incrível que pareça quando a gente saia no portão da escola ele estava lá, balançando o rabinho, latindo feliz para nós. Para onde eu fosse ele ia comigo. Quando o Totó foi embora foi uma emoção muito forte na família toda. Hoje meu filho tem uma cachorra, Pretinha, que me remete à época do Totó. Hoje meu bicho de estimação é cada selva que cruzo, cada deserto, cada montanha, sempre vou ter um bichinho lá que vai ser um companheiro. Como na Antártica, estávamos no meio do iceberg, há 60 graus negativos e via aquelas colônias de pinguins e eu usava aquela brincadeira mental, agradecendo aos pinguins por estarem torcendo por mim e aplaudindo! Você acaba, de uma forma ou de outra, criando um conexão com eles.

Sangue de Corredor: Neste momento, aqui nesse café, como você qualificaria sua vida, olhando para trás e vendo o caminho que você trilhou, o que você sente, realizado?

Carlos Dias: Me sinto extremamente realizado. Sou grato por tudo. São 24 anos de carreira e não celebro só os 24 anos, celebro também a minha idade, 44 anos e, o desafio começou lá atrás, na minha infância. Sou muito feliz por ter escolhido a corrida como a minha ferramenta. Ela é o meio, não o fim, para que pudesse chegar até as pessoas. Ela me levou a lugares que poucas pessoas terão a chance de conhecer. Mas a minha vida é na realidade a forma como Ele me permitiu fazer essa conexão com qualquer pessoa, em qualquer pais, em qualquer ambiente. O primeiro sulamericano a correr quatro desertos no período de um ano. Ter cruzado os Estados Unidos, de Nova York até São Francisco. Ter cruzado o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, com minhas próprias pernas. Só tenho que agradecer a Deus. Eu não imaginava que ia sair de uma rua sem saída (onde comecei a correr), em São Bernardo do Campo, Rua Iran e de repente está sendo aplaudido por pessoas de todas as partes do mundo, sendo muito bem recebido. Tenho vários amigos em vários cantos do mundo.

O menino que de uma rua sem saida (onde começou a correr) iria trilhar as ruas do mundo

Sangue de Corredor: Qual foi a sua maior realização?

Carlos Dias: Foi o momento do nascimento de meu filho. Esse momento supera todos os outros, foi no momento em que estava me tornando pai. Ele é meu parceiro!! Procuro passar o máximo de conhecimento para ele, mas não só discurso, mas atitudes. Por isso não paro de fazer desafios ousados que é para mostra para ele que a gente tem que buscar nossos sonhos e não somente sonha-los. Ter a atitude de realiza-los.

Sangue de Corredor: O que falta você fazer ainda?

Carlos Dias: Ainda quero cruzar a Europa correndo. Correr no Japão como forma de agradecer o carinho que eles tem demonstrado para comigo, mesmo que nunca tenha corrido por lá.

Sangue de Corredor: O que você sentiu quando foi convidado para fazer parte da Série “Os Super-Humanos”, de Stan Lee, o criador de tantos super-heróis? 

Carlos Dias: Demorou para cair a ficha. Quantos corredores tem no mundo. Quantos corredores tem na América Latina, no Brasil. Quantos ultramaratonistas de renome existem e que poderiam ter sido escolhidos.

Quando recebi o e-mail, pensei que fosse spam! Demorou, cara, para cair a ficha. Pensei que fosse brincadeira de alguém.

Não poderia acreditar que aquele garoto pobre, filho de um vigia e de uma faxineira, poderia estar sendo escolhido pela equipe de Stan Lee para fazer esse programa.

Mesmo relutante, uma vez que no e-mail trazia a logo do History Channel, respondi e em 24 horas eles já informavam que viriam ao Brasil para comprovar se eu tinha ou não as qualidades exigidas pelo programa e que já me acompanhavam há mais de 5 anos. Eles se atentaram eu ter feito várias corridas insanas, como correr 250 Km, no deserto, cruzar os Estrados Unidos ou cruzar o Brasil do Oiapoque ao Chuí e não ter sofrido nenhuma lesão, eu ter feito desafios extremos e voltado nas mesmas condições que fui. Outro aspecto que levaram em conta foi o fato de usar a corrida como inclusão social.

Cresci lendo as história do Homem-Aranha, do Super-Homem. Nunca ganhei pódios mas sempre conclui meus desafios de forma que pudesse retornar para brincar com meu filho. Foi gratificante receber esse convite do Stan Lee, ser escolhido entre mais de 6 milhões de corredores para ser o representante da América Latina, nesse formato: SUPER HUMANO, não Super-Homem. O Super-Homem é o personagem que que não sente frio, não tem medo, tem poderes especiais. Não sou um super-homem, eu choro, sinto frio, sinto dor, sinto raiva, sou um ser-humano imperfeito. Valeu a pena ter apostado no esporte que escolhi. Esse prêmio não é so meu, divido com todos os atletas que fazem da corrida um esporte especial. Divido também com minha família, com aqueles que me fizeram chegar ate aqui, como meu treinador, o Heroi Fung, meu filho, que me inspira, o pessoal da Fisio4Sport, os medicos que me acompanham. Se fosse agradecer a cada uma das pessoas que me ajudaram, ficariamos aqui algumas horas. Então agradeço a Deus e aos amigos de corrida e aos amigos de perto e de longe.

Sangue de Corredor: O que falta ainda você fazer? Qual será o seu maior desafio a ser realizado?

No limite

Carlos Dias: Eu sempre estou desenhando novos desafios. Acabei de cumprir o desafio de correr 24 horas em 24 capitais e em 2018 quero atravessar o Brasil, mais uma vez, saindo do Arroio Chuí e vir pelo litoral depois, chegar em Fortaleza, entrar pelo interior do Brasil e chegar no Monte Roraima, no extremo norte, correndo 10 mil quilômetros. Esse desafio vai ser vendido e parte da renda será para atender algumas instituições, como o GRAAC, uma ONG na Bahia que atende a crianças em alta vulnerabilidade e também o projeto que quero criar: LUZ NA TRILHA, uma rede social que possibilite a qualquer atletas com deficiencia fisica poder se cadastrar e os atletas corredores se cadastrarem tambem, para ser guias.

Sangue de Corredor: Qual recado você gostaria de deixar, para esta e as futuras gerações?

Carlos Dias: Devemos sempre buscar a excelência. Buscar os nossos sonhos, não se prender pelo medo, não ser guiado pela dúvida, o medo tem que ser o ponto que vai permitir que você faça as coisas com cuidado. Ser protagonista da sua própria história. Seja você o provocador da história, estimular outras pessoas e não esperar que você seja estimulado. As dificuldades sempre vão existir, elas fazem parte desse crescimento, então coloque dentro da sua mochila, o foco, a fe, a honestidade, a gratidão, o respeito, o entusiasmo, o amor, o prazer por fazer exatamente aquilo que você está fazendo. Não faça nada pela metade, faça sempre por completo, nem que demore cem anos. A vida é curta, mas não pode ser pequena. Entre você desejar um sonho e realizar o sonho, tem um espaço e esse espaço é exatamente o seu protagonismo, a sua atitude, a sua decisão de realizar o sonho, independentemente das pedras que possa encontrar pelo caminho. Temos que trabalhar a paciência.

A distância ate a lua não é tão longa, a maior distância está dentro de nos mesmos.

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