Miguel Dantas: o brasileiro Six Majors ou quando o homem troca o tênis por asas.

O primeiro brasileiro a receber a Medalha Six Majors e o segundo no mundo! Feito extraordinário. O que mais Sangue de Corredor poderia dizer?

Essa é a historia de Miguel Dantas, o menino de Itabuna, que sonhava ser um corredor!!!

Sangue de Corredor: Você poderia discorrer sobre quem é Miguel Dantas?

Miguel Dantas: É um corredor apaixonado por corrida, apaixonado por velocidade. O que me atrai em correr é a velocidade, então, eu corro obstinado por dar sempre o meu melhor, nunca dou menos que o meu melhor, quero sempre me superar, o meu concorrente é meu tempo de ontem. Então, hoje eu quero ser melhor do que ontem, amanhã eu quero ser melhor do que hoje. Eu vivo neste meio de corrida com o objetivo de estar sempre me superando, dando sempre o meu melhor, sempre quero ser melhor do que eu fui na última corrida, sentir o vento bater na minha cara, adoro o vento, adoro correr no vento, adoro correr no frio, adoro viver correndo.

Miguel Dantas maratonista há seis anos é esse homem que era um menino que sonhava correr, que sonhava ter asas nos pés para correr e dá o seu melhor sempre.

Sangue de Corredor: Você corre desde quando?

Miguel Dantas: Corro há 25 anos, sendo que nos primeiros 19 anos eu corria na rua todos os dias, na faixa de 10Km, 12km, 14km. Durante 19 anos sempre correndo sozinho pela rua e há seis anos resolvi fazer uma prova de 10 Km, depois, foi sugerido que eu fizesse uma prova de 21Km e achei que era muito. Quando finalmente fiz uma prova de 21Km, resolvi fazer uma maratona! Só vou fazer uma maratona para ter no currículo e ai escolhi Nova York, que foi minha primeira das 26 maratonas. E no dia 06 de novembro de 2011 estava eu na linha de largada da Rainha das Maratonas.

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Sangue de Corredor: Como eram suas atividades, antes e depois do acidente tanto na Corrida e como na vida? O que mudou e qual foi sua nova perspectiva de vida?

Miguel Dantas: Onde eu resido, em Itabuna, no sul da Bahia, a 430 km de Salvador, não temos local apropriado para corrida de rua, um local que nos dê segurança. Então durante 23 anos dos 25 que corro, corria na rua, sempre começando às 4:45 e 5 horas da manhã. Durante 23 anos corri sem nenhum problema, mas no dia 11 de outubro de 2015 fui atropelado quando um carro, nesse mesmo percurso que ocorri durante 23 anos, entrou na contra-mão e me pegou em cheio. Antes do acidente, sempre fui uma pessoa destemida, que se sentia seguro na rua, então depois do acidente, pude ver na própria pele que a vida um fio muito tênue. Temos que ser destemido, mas temos que ser mais precavido, porque a vida é única, não temos 7 vidas, como os gatos (rsss). Então passei a ver os limites que temos que ter. A partir daí, realmente fiquei mais ponderado em muitas coisas, inclusive passei a fazer meus treinos em esteiras, de segunda a sexta e, só no domingo que corro ao ar livre, em uma área de Reserva Federal que é uma área que tem segurança, mas que não pode utilizar outros dias da semana.

Minha familia, meu tudo!

Sangue de Corredor: Família unida treina unida e corre unida? Como é isso? Você como pai e marido sempre presente, como você concilia sua atividade profissional e familiar com os treinos e as corridas?

Miguel Dantas: Procuro sempre conciliar as atividades profissionais e familiares com os treinos e as corridas. Levo a família para onde eu vou correr. Minha família sempre me apoia em tudo que envolve uma preparação, treino, alimentação, fisioterapia, treinamento de reforço muscular, nesse caso a família participa de tudo, cada um no seu ritmo, cada um na sua intensidade. Minha esposa corre distâncias menores, por enquanto, faz academia. A filha mais nova também corre e a filha mais velha corre distâncias médias abaixo da minha e acima da filha mais nova e da esposa e é tudo intenso, tanto nos treinos como na parte profissional, então a gente vai levando.

Esse ano foi um ano diferenciado porque fiz 50 anos, fiz um banco de horas para poder viajar mais que o normal, durante esse ano. Mas estamos sempre ligados apesar das viagens estou sempre on line com a parte profissional.

Sangue de Corredor: Qual o primeiro pensamento que te veio à mente quando você se deu conta que estava na largada da Maratona de Nova York, prestes a concluir as Six Majors? Tente, do fundo do coração, transmita-nos esse sentimento, essa emoção? 

Miguel Dantas: Rainha das Maratonas!!!! essa foi a quinta vez que corri, no dia 5 de novembro, foi a 5ª maratona que corri em Nova York. Na verdade, era para ser a sétima, a primeira vez que a fiz foi dia 6 de novembro de 2011, no ano seguinte não houve a maratona porque teve a super-tempestade Sandy, em 2013 e 2014 eu ocorri e em 2015, há 3 dias do embarque para correr, fui atropelado, não corri!

Em 2016 e esse ano eu corri, então foram cinco vezes que corri a Maratona de Nova York. A emoção na hora da largada foi uma emoção já pensando na chegada, o que normalmente não é o que ocorre.

Foi uma emoção ímpar.

Mas na verdade a maior emoção que eu tive foi na sexta-feira quando soube que iria receber a segunda Medalha.

Porque a emoção foi maior? Porque até antes de Nova York não existia a premiação para uma segunda Medalha. Em fevereiro deste ano, em Tóquio, nós estivermos no estande das Majors, com a Diretora Judith e falamos sobre a segunda medalha que eu receberia em Nova York, no final do ano e ela disse que o regulamento não previa uma pessoa receber uma segunda medalha. Nós explicamos, mostramos que eu fiz roupas para cada corrida, os macaquitos para cada Majors que eu iria correr em 2017, mas ela disse que não era possível. Quando foi em Londres, no dia 21 de abril, nós estivermos com ela de novo e mais uma vez ela disse que não era possível.

Quando foi agora, em Nova York, na sexta-feira, quando visitavamos o stand das Majors, para falar com ela novamente, antes mesmo que eu abrisse a boca ela me reconheceu e disse que tinha uma novidade boa para me contar. Meu coração explodia por dentro. Ela tinha levado para o Comitê das Majors a minha reinvindicação e o Comitê concordara em me conceder uma segunda Medalha.

Mas a emoção não acabou ai: ela me informou, também, que fui o segundo maratonista do mundo a fazer todas as Majors no mesmo ano, no caso 2017 e, seria o primeiro a receber a segunda Medalha. Nesse caso, fui o primeiro maratonista do mundo a receber a segunda Medalha e o segundo maratonista do mundo a fazer a seis Majors no mesmo ano, porque o primeiro a fazer, foi um japonês no ano passado.

Sangue de Corredor: Sabemos o quão é complicada a recuperação do organismo antes, durante e depois de uma Maratona. Você faz algum trabalho específico, quanto à alimentação e exercício, para se manter sempre competitivo? 

Miguel Dantas: Faço o tratamento ortomolecular, através dos exames a medica que me acompanha detecta quais são as minhas deficiências e propõe a suplementação de vitaminas, sais minerais e suplementos de uma maneira geral. Também faço após os treinos e corridas longas e fortes, intervalados, a recuperação em gelo e massagens, alongamentos, todo tipo de auxílio para a recuperação, principalmente descanso e gelo.

Sangue de Corredor: Poucos corredores conseguiram realizar esta proeza extraordinária, qual foi a motivação e como você se sente agora?

Miguel Dantas: Em todo mundo, somente eu e um japonês fizemos as seis Majors no mesmo ano. A segunda medalha não foi dada por ter feito as maratonas no mesmo ano, mas sim, por ter feito as seis Majors pela segunda vez. Eu completei a primeira Six Majors em Tóquio do ano passado e em Tóquio fiquei sabendo que era o 5º brasileiro a completa-la, mas como a medalha foi criada no Japão no ano passado, fui o primeiro brasileiro a recebe-la,de fato. Os outros quatro brasileiros que fizeram antes de mim, receberam o diploma, como eu recebi, mas não receberam a medalha no ano que completaram, só receberam depois que recebi, ainda que tenham obtido o direito de recebe-la. E no mundo somente outros 578.

Quando explode o coração

Então, como faria 50 anos nesse ano de 2017, meu pensamento em Tóquio, no ano passado, foi: por que não fazer todas no mesmo ano? Então resolvi fazer algo diferente nos meus 50 anos, já que não posso ser rápido como um queniano, que faz maratona em 2:02:52, já que não posso ser rápido como meus colegas de corridas, por exemplo, meu preparador físico que pesa 60 quilos e faz maratonas 2:49. Quando fiz a primeira maratona em 2011 eu tinha 128 quilos, hoje tenho 92 quilos. Não consigo tirar trinta quilos, então penso assim: se não posso ser o mais rápido vou tentar fazer algo diferente. E foi o que fiz: CORRER TODAS AS MAJORS NO MESMO ANO COMO UM PREMIO PESSOAL AOS MEUS 50 ANOS!!! Meu próximo sonho é ser sub-três, em Boston. Porque Boston? Porque é a Maratona mais antiga do mundo moderno, desde 1896 e lá é mais difícil e a mais técnica das maratonas atualmente. Vou lá para vencer a barreira das 3:00. Eu vivo de desafios!! Imagine um cara grande e pesado correr contra a natureza? Esse sou eu!!!

Sangue de Corredor: Depois desta odisseia, quais serão seus próximos desafios?

Miguel Dantas: Meus próximos desafios? Ser sub-três no dia 16 de abril, uma segunda-feira em Boston. Boston é a única maratona no mundo que ocorre em uma segunda-feira. Vou repetir o que fiz esse ano, corro na segunda em Boston, pego avião na quarta-feira para Londres. Corro em Londres no domingo e na quarta-feira pego o avião para Boston. De Boston voo para São Francisco. Em São Francisco vou fazer a Big Sul. A Big Sul é uma maratona que larga em Monterrey, na Califórnia, e seu percurso margeia o Pacífico, uma prova dura subindo até chegar em São Francisco. Tudo se Deus permitir. Serão três maratonas em 13 dias. Esse é o meu desafio Imediato do primeiro trimestre

Sangue de Corredor: O espaço é seu, fale, grite, cante o que você quiser.

Miguel Dantas: No meu espaço livre aonde você permite que eu fale, que eu grite, que eu cante, o que eu quiser dizer: agradecer a Deus todos os dias por acordar, respirar, por me permitir que eu possa realizar os meus sonhos, manter a saúde, me mantenha determinado, disciplinado e focado; agradecer a Deus pela minha família, minha esposa, minhas duas filhas, essa família linda e maravilhosa que eu tenho e que amo demais! Que Deus me permita estar cercado de pessoas boas que queiram meu bem, que me apoiam, como o meu fisioterapeuta, osteopata e quiropata, Doutor Thiago Franco Freire; Dra. Carla Ferner, minha médica ortomolecular; o Dr Eduardo Darze, meu cardiologista; o preparador físico Anderson Pereira Pixô (também corredor que faz maratona em 2:49 mas é um futuro sub-dois e trinta); o Marcio Bruno, fisioterapeuta que me acompanha nos treinos; Marco Paulo Reis, dono da MPR – Assessoria Esportiva, de São Paulo e, meu treinador, Emerson Gomes! Sem cada um deles, ao seu modo, me ajudando, não teria chegado aonde cheguei. Aqui vai meus agradecimentos público a cada um de vocês!!!

Era uma vez… um menino que sonhava correr. Este menino cresceu e ao tornar-se adulto, ganhou as ruas e avenidas de Itabúna, na Bahia e depois foi conquistar o mundo como o primeiro maratonista do mundo a receber a segunda MANDALA MAJORS e segundo no Mundo a completar a SIX WORLD MAJORS em um mesmo ano 🇯🇵🇺🇸🇬🇧🇩🇪🇺🇸🇺🇸

Durante 15 anos – até ser atropelado – eu corria ouvindo som com fone de ouvido 🎧 e entre uma musica e outra havia a voz de minha Princesa PRIMOGÊNITA ALICE dizendo VAI PAI, VAI! Depois de ouvir por tantos anos, todas as vezes que encontro dificuldade durante uma prova ouço a mesma voz estimulando minha vitória pessoal

A Vitória das Vitórias

“Para escrever uma historia é preciso muita imaginação e um bom roteiro, mas para fazer história é preciso antes de tudo acreditar de que você é capaz de construir seu próprio caminho, contar com a força divina e ter apoio das pessoas que te cercam, pricipalmente da família.

Hoje você fechou um capítulo mais do que especial da sua história, digo isso porque outros grandes capítulos virão.

Sei que nesse momento o sentimento é de alma lavada, dever cumprido e felicidade plena. Apesar do cansaço, o corpo esta leve, mas também o sentimento de gratidão por ter planejado, executado e cumprido seus objetivos como se fosse o roteiro de filme.” (Depoimento do amigo Antonio Cezar)”.

“De que lhe adianta ter asas, se você não pode sentir o vento?”

 

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