Dores musculares no dia seguinte? Elas não são do ácido lático!

Muitos de nós sentimos a musculatura dos membros inferiores pesada no dia seguinte de um treino extenuante ou de uma prova, independente da distância percorrida. Para os mais antigos no esporte, isso acontece por causa do acúmulo do Ácido Lático nos músculos. No entanto, pesquisas apontam que esta tal “dor de ácido lático” não existe e comprovaremos abaixo esta afirmação. Para esta comprovação, explicaremos inicialmente o mecanismo do Ácido Lático e o que realmente acorre quando sentimos dores musculares após um exercício pesado.

Vindo do metabolismo dos Carboidratos com pouca utilização de oxigênio (metabolismo anaeróbio), o Ácido Lático é produzido nos músculos durante uma atividade física intensa e, após uma reação química, ele é separado do íon Hidrogênio (responsável pela característica ácida dele) e passa a ser chamado de lactato ao chegar na corrente sanguínea.

Ao mesmo tempo que o lactato é produzido (e o excesso dele causa a fadiga do organismo), ele também é removido no Fígado e nos Rins para uma nova formação de Carboidratos (conhecido tecnicamente como gliconeogênese) e voltar a ser uma fonte de energia. Para que isso aconteça, é necessária a presença de muito oxigênio (metabolismo aeróbio) numa atividade física de intensidade baixa.

Conforme descrito acima que uma atividade física leve (um trote ou uma caminhada) ajuda na remoção do lactato, podemos dizer que a remoção completa dele tem uma duração máxima de 1h30min. Para se ter uma idéia, se trotarmos 20 minutos já removemos 70% da quantidade total de lactato produzido na parte principal do treino ou da prova de corrida. Por não estar presente nos músculos e na corrente sanguínea no dia seguinte, fica comprovado que a “dor do dia seguinte” não se deve ao acúmulo de ácido lático.

Cuidar do coração

Se a dor não ocorre pelo Ácido Lático, como ela acontece? Aqui teremos a explicação: o nosso músculo é composto por várias fibras musculares que, dependendo da atividade realizada, algumas delas não apresentam necessidade de serem utilizadas (principalmente nas atividades leves). De acordo com o aumento da intensidade ou da duração de uma corrida, mais fibras musculares são recrutadas na execução da atividade.

Falando na linguagem esportiva, estas fibras que não eram utilizadas estavam “fora de forma” e “sem ritmo de jogo” e ficaram cansadas pela exaustiva atividade realizada, apresentando um processo inflamatório. Com isso, damos o nome de “DOR MUSCULAR TARDIA” a este processo inflamatório que acontece geralmente no dia seguinte (dependendo do caso, pode durar até 3 dias).

Anúncios

Um exemplo que costumo utilizar para esta situação é uma corporação do Corpo de Bombeiro com 10 profissionais que estão na corporação num dia de plantão. Se tem uma ocorrência leve (um gato numa árvore alta, por exemplo), 2 destes dez profissionais são suficientes para executar o trabalho, deixando os outros 8 profissionais descansando. Quando, por exemplo acontece um incêndio numa fábrica, todos os 10 profissionais são recrutados para trabalhar. No dia seguinte, os 2 profissionais que trabalharam antes, já acostumados com o trabalho, não ficaram doloridos. Em compensação, os 8 profissionais que estavam descansando, que estavam sem o “ritmo de trabalho”, ficaram exaustos por terem executado a atividade.  Comparando a “dor muscular tardia” com o exemplo, cada funcionário representa uma fibra muscular. Como 80% das fibras musculares estavam “quietas”, isso gerou a dor muscular no dia seguinte.

Por termos compreendido que a dor muscular nos dias seguintes não acontecem por causa do Ácido Lático, a Dor Muscular Tardia tem uma média de 48 horas de recuperação. Neste período, o corredor pode optar pelo repouso da corrida ou pela realização de outras atividades diferentes da Corrida (Natação, Ciclismo, Musculação para membros superiores) para acelerar a recuperação muscular e render bem e sem desconfortos no próximo treino.

O importante de tudo isso é a consciência que a Dor Muscular Tardia vai ocorrer, que ela não se origina do Ácido Lático e sabermos o que fazer para este processo inflamatório ser eliminado o quanto antes. Isso tornará  o treino e as futuras provas mais eficientes.

Marco Costa

Marco Costa

Corredor desde 1998. Graduado em Educação Física (UniFMU-2003); Pós-Graduado em Treinamento Desportivo (UniFMU-2005), Fisiologia do Exercício (UNIFESP/EPM-2006) e Administração e Marketing Esportivo (Universidade Gama Filho-2013). Treinador de Corridas de Rua, Personal Trainer e Professor Escolar para Ensino Fundamental e autor do livro "DESAFIO DO DUNGA: Superações Física, Mental e Pessoal em duas Edições", Editora 4Letras, 2016.

Deixe uma resposta