Treinamento em Altitude: difícil no início, mas traz benefícios ao corredor

Qual corredor nunca se sentiu muito tão bem correndo ao nível do mar, chegando até a melhorar tempos numa determinada distância (que hoje, chamam de RP) e, em lugares mais altos, o rendimento não é dos melhores por causa de dificuldade na parte cardiorrespiratória? Isso é explicado com as adaptações fisiológicas que o organismo sofre com o aumento da altitude.

Voltando às aulas de Geografia e de Ciências do 6º ano (nossa antiga 5ª série), a altitude nada mais é do que a elevação vertical medida entre um determinado local e o nível do mar (que é considerado 0 m). À medida que “subimos a serra”, maior será a altitude, tornando o ar mais rarefeito por causa da diminuição da Pressão de Oxigênio. Exemplos: a distância vertical (ou a altitude) de São Paulo ao nível do mar é de 760 m e a cidade de La Paz, na Bolívia, é de 3.600 m.

Até aproximadamente 1.700 m de altitude, poucas alterações são percebidas pelo corpo humano. A partir desta distância até o nível do mar, algumas mudanças já são percebidas como tonturas e cefaleia. A partir da altitude de 2500m, por causa do ar “pesado”, o nosso organismo apresenta uma dificuldade em captar o oxigênio da atmosfera, dificultando assim o transporte deste gás aos músculos e outros tecidos do corpo, trazendo consequências como insônia, náuseas, desconforto pulmonar, letargia, fraqueza, chegando até a um colapso.

Se já é difícil caminhar na altitude, imaginem correr longas distâncias em locais mais elevados? Pelo fato das corridas longas serem muito dependentes do Oxigênio, cuja pressão é reduzida com o aumento da altitude, os atletas apresentam muitas dificuldades durante os treinos nestes locais, apresentando uma maior acidose (um dos maiores indicadores de fadiga) e aumento da frequência cardíaca (tanto em repouso quanto nas atividades submáximas e máximas). Diante destes quadros, é possível afirmar que o atleta “sofrerá” nos primeiros dias em que estiver na altitude.

Por outro lado, se um corredor permanecer entre 15 e 21 dias em locais altos (em relação ao nível do mar), o organismo dele sofrerá algumas adaptações que trarão inúmeros benefícios a ele. Um dos benefícios mais importantes é o aumento da quantidade de hemácias na corrente sanguínea, que facilitará o transporte de Oxigênio aos tecidos e trará ganhos de performance ao corredor quando ele “descer a serra” e voltar às altitudes mais baixas. Com um transporte melhor de Oxigênio, ele terá aumento tanto no Consumo Máximo de Oxigênio (VO2 máximo) quanto nas intensidades submáximas (apresentando, por exemplo, os valores dos limiares aeróbio e anaeróbio- vistos no texto anterior- mais elevados), além de um melhor desempenho nos treinos e nas provas.

Treinar na altitude é uma prática muito comum dos “corredores de ponta” (atletas de alto rendimento) para ficarem entre os melhores nas principais provas.

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Como tudo na vida, o treinamento em altitude tem tanto o lado desafiante quanto os benéficos. Inicialmente, o atleta sofrerá e sentirá dificuldades, mas por ele ser forte e ter o “sangue de corredor”, certamente aguentará a dificuldade imposta pelos locais mais altos em relação ao nível do mar e “descerá” com os benefícios. Não é necessário, por exemplo, ir para os 3.600m de La Paz (pode deixar isso para os jogadores de futebol fazer em jogos da Copa das Libertadores, da Copa Sul-Americana e das eliminatórias para a Copa do Mundo, quando enfrentar times bolivianos), mas treinar em altitudes em torno de 2.500m terão ótimos benefícios.

Ótimos treinos! Caso queiram experimentar esta sensação de treinar em locais mais altos, procure profissionais da área da Saúde (médicos, professores de Educação Física, nutricionistas) para eles te ajudarem nos treinos, nas dietas, na prevenção e no tratamento na permanência nestes locais.

Marco Costa

Marco Costa

Corredor desde 1998. Graduado em Educação Física (UniFMU-2003); Pós-Graduado em Treinamento Desportivo (UniFMU-2005), Fisiologia do Exercício (UNIFESP/EPM-2006) e Administração e Marketing Esportivo (Universidade Gama Filho-2013). Treinador de Corridas de Rua, Personal Trainer e Professor Escolar para Ensino Fundamental e autor do livro "DESAFIO DO DUNGA: Superações Física, Mental e Pessoal em duas Edições", Editora 4Letras, 2016.

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