Marílson Gomes dos Santos, o menino pobre de Ceilandia que conquistou o mundo

O menino que gostava de jogar futebol em Ceilandia aos nove anos, começou a correr para acompanhar o irmão. Surpreendeu os corredores mais velhos ao superar irmão e primo desde as primeiras experiências no pedestrianismo. Com isso, chamou a atenção do técnico Albenes de Souza, que passou a treiná-lo. Aos 11 anos, já marcava 39 minutos nos 10.000 metros.

Aos 15 anos transferiu-se para o SESI de São Caetano do Sul onde passou a dedicar-se exclusivamente para provas de pista (800, 1.500 e 3.000 m), na categoria Menores.

Ao passar para a categoria Juvenil, quando então corria 5.000 e 10.000 m, voltou a disputar algumas corridas de rua, mas seu foco principal ainda eram as provas em pistas.

Marílson, que se despediu da vida de atleta após a disputa dos Jogos Olímpicos do Rio, recorda que sua história com a São Silvestre começou muito antes de sua primeira participação. “Eu assisti muito a São Silvestre quando era criança. Via pela TV e imaginava como seria participar da prova um dia. Brasília teve grandes representantes na corrida, como o Valdenor Pereira dos Santos, e eu corria no mesmo grupo em que ele começou”, recorda. “Quando vim para São Caetano e passei a treinar com o Adauto Domingues, que também correu a prova muitas vezes, essa vontade foi crescendo.”

A primeira participação de Marílson na prova, no fim da década de 1990, foi para “entrar no clima” da São Silvestre. “Quando corri a primeira vez, ainda era juvenil. Foi em 1997 ou 1998. Eu queria correr, mas, ao mesmo tempo, a prova é em uma época festiva. Eu queria voltar para casa, passar o Natal com a família, mas o Adauto foi trabalhando isso comigo. Ele disse que queria que eu participasse para conhecer o percurso, mesmo sem chance de chegar na frente”.

Já em sua segunda participação, Marílson chegou ao pódio pela primeira vez. Em uma prova muito equilibrada, o ex-fundista foi o quarto colocado na edição de 1999, em que o lendário Paul Tergat conquistou o tetracampeonato. Ainda como atleta da Funilense (que daria origem ao Clube de Atletismo BM&FBOVESPA), Marílson liderou boa parte do percurso, sendo ultrapassado perto da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

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“Esse resultado me animou muito. Depois fui quarto colocado novamente (em 2001) e vice em 2002. Eu queria estar no lugar mais alto, e depois desses pódios, comecei a pensar: ””será que vou ter a oportunidade de vencer algum dia?”” A cobrança aumentava, ano a ano, e passei a ser apontado como o brasileiro que mais tinha chances de vencer. A pressão era grande”.

Em 2003, Marílson venceu. Acabou com um jejum de vitórias do Brasil que durava desde 1997, quando Emerson Iser Bem impediu o tricampeonato de Paul Tergat. “Eu já tinha acompanhado a vitória do Emerson e também a do Ronaldo da Costa, em 1994, e vi como ganhar a corrida fazia o atleta ser visto de uma maneira diferente no meio esportivo.”

Com Marílson não foi diferente. “Ganhar em 2003 trouxe muita repercussão para a minha carreira, porque já era uma época em que as provas no mundo todo eram dominadas pelos africanos”, recorda. Naquele momento, se Paul Tergat já havia vencido a São Silvestre cinco vezes e se dedicava a correr maratonas pelo mundo, outro queniano queria defender esse legado: Robert Cheruiyot.

Mas o brasileiro Marílson foi um grande rival para o queniano. Depois de perder a prova em 2004 por causa de uma lesão, ele retornou à São Silvestre em 2005. “E é muito complicado correr a São Silvestre depois de ter vencido. O Adauto disse que eu fui muito frio, porque outro atleta no meu lugar não teria a mesma calma que eu tive”, lembra. “E havia outra cobrança: apenas dois brasileiros tinham ganhado a prova duas vezes”.

Antes de Marílson, apenas Sebastião Alves Monteiro (1945/46) e José João da Silva (1980/85) eram bicampeões da corrida em sua fase internacional, iniciada em 1945. “Era grande a pressão para eu igualar essa marca, mas eu não dei muita bola. Talvez por isso eu tenha conseguido chegar tão equilibrado psicologicamente. Porque a São Silvestre é isso: o equilíbrio tem que ser geral, da parte física e psicológica”.

São Silvestre 2010, a terceira vitória: “A pressão mais absurda da minha carreira”

Bicampeão da São Silvestre, Marílson partiu para consolidar sua carreira nas maratonas – a estreia nos 42 km havia sido em 2004. Para se dedicar às desgastantes provas de longas distâncias, Marílson ausentou-se da São Silvestre por quatro anos – em 2006, Franck Caldeira, também do Clube de Atletismo BM&FBOVESPA, foi campeão. Nesse período, Marílson conquistou duas vezes a Maratona de Nova York (2006 e 2008), disputou sua primeira Olimpíada (Pequim/2008) e estabeleceu suas melhores marcas pessoais nos 5.000 m, 10.000 m e meia-maratona (que também são, até hoje, recordes sul-americanos).

Meu sonho

Naquele dezembro, Marílson já era um atleta de carreira internacional consolidada e estava prestes a ser pai pela primeira vez – sua mulher, a fundista Juliana Paula Gomes dos Santos, estava na reta final da gravidez de Miguel, que nasceria em fevereiro. “Foi a pressão mais absurda que eu sofri na minha carreira. Essa volta à São Silvestre foi impressionante. A cobrança foi pior do que em qualquer outra competição: pior que Olimpíada, Mundial, Pan. E tinha a Juliana com a gravidez já avançada. Eu larguei para a prova preocupado com ela, pensei o tempo todo se ela estava nervosa, se ela estava bem… Mas deu tudo certo, e hoje sou o único brasileiro tricampeão da prova!”.

Primeira vitória em Nova York (2006)

No dia 5 de novembro de 2006 foi disputada a Maratona de Nova York. Vários atletas de renome estavam presentes, muitos com capacidade real de vencer a prova. Para chegar no dia-alvo em condições de brigar pela vitória, cada competidor deve realizar sua preparação por um longo período. No caso de Marilson, o polimento final para essa prova durou dois meses.

“Foram quatro participações que eu perdi, porque minha ênfase maior era na maratona. Corri várias vezes em Nova York, que é em novembro, e não conseguia fazer a recuperação. Porque a São Silvestre, apesar dos 15 km, tem um percurso muito duro e um lado emocional muito difícil”, conta. “Mas tinha a cobrança: ””quando você vai voltar? Quando você vai correr de novo?””. E eu decidi que ia voltar em 2010″.

Marílson conta que, apesar da cobrança, a disputa de 2010 também foi importante para satisfazer um desejo pessoal. “Bateu saudade. Tem a pressão, mas eu queria sentir de novo o sabor de cruzar a Paulista, de chegar em primeiro lugar e ouvir o hino no pódio.” A última participação do ex-fundista na São Silvestre foi em 2011, ano em que fez seu recorde pessoal na maratona (2h06min34, em Londres). Naquele ano, o percurso foi modificado, com a chegada no Obelisco do Ibirapuera, e a prova ocorreu debaixo de forte chuva – Marílson foi o oitavo colocado.

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